Um pouco mais de Luz

A SABEDORIA É UM REFLEXO DA LUZ ETERNA (V. Sb 7,26)

Página inicial do sítio > Sabedoria humana / Sabedoria Divina > Edith Stein > As vias do conhecimento de Deus > Prefácio

Prefácio

quinta-feira 30 de Junho de 2016

Este estudo sobre Dinis o Areopagita é um dos últimos escritos de santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein). É também um dos mais importantes para descobrir as dimensões da teologia desta grande santa do século XX. Mas sobretudo através de Dinis, Edith Stein convida-nos a reencontrar as perspetivas dos Padres da Igreja relativas ao conhecimento de Deus, a teologia.

Depois de ter escrito sobre são Tomás de Aquino, e precisamente antes de escrever sobre são João da Cruz o seu último grande livro A ciência da Cruz, a carmelita concentra a sua atenção sobre o misterioso Padre grego que é uma das maiores fontes de são Tomás e de são João da Cruz. E ela insiste mesmo, de maneira ainda mais ampla, desde as primeiras páginas do seu estudo, na extraordinária influência exercida pelos escritos de Dinis sobre a Igreja do Ocidente desde a Idade Média, comparando-a precisamente à de santo Agostinho. Ora esta influência não se explica apenas pela autoridade do autor a quem estes escritos são atribuídos, Dinis o Areopagita, convertido por são Paulo em Atenas (cf. At 17, 34), mas também pela profundidade e originalidade do conteúdo destes escritos, do corpus dionisíaco.

Edith Stein é uma santa do século XX. A sua releitura de Dinis integra os resultados mais certos da crítica histórica relativa ao corpus dionisíaco, de tal maneira que ela afirma claramente:

A maior parte dos especialistas admitem que foi redigido no fim do século V. Depois, o nome geralmente dado ao redator é o de «Pseudo-Dinis o Areopagita». Eu própria, se ponho entre aspas o nome «Areopagita», é para indicar que não tomo o autor do Corpus pelo discípulo de são Paulo falando ao Areópago. Mas se daqui para a frente escrevo simplesmente Dinis ou o Areopagita, já não tenho que temer qualquer ambiguidade. Não proponho nenhuma hipótese sobre o personagem que se apresenta com este nome ou que se esconde atrás dele.

A carmelita não esconde assim a sua profunda simpatia pelo misterioso autor destes escritos. Ao renunciar a dar o nome antipático e antipoético de «Pseudo-Dinis» a este teólogo da Beleza, ela mostra que ela não o quer considerar como um «falsário». Para ela, está claro que aquele que ela continua a chamar Dinis é um génio e um santo. É assim que afirma: «Todo aquele que aborda este desconhecido sem juízo prévio fica imediatamente fascinado pelo poder de um espírito superior.» Neste mesmo sentido ela escreve ainda:

Os escritos atribuídos ao Areopagita são um prodigioso hino à Glória e ao Amor de Deus, penetrados mesmo na sua expressão verbal de um imenso e santo respeito [...] Veneramos assim sob o nome de Dinis um santo desconhecido e um dos mais influentes Padres gregos, senão o mais influente. [1]

A profunda «veneração» que os santos da Idade Média tinham por Dinis não era portanto unicamente ligada à sua identificação com o discípulo de são Paulo; muito mais ainda, ela estava ligada ao valor intrínseco dos seus escritos. E é assim que a carmelita do século XX «venera» este «santo incomum», testemunhando assim a profunda simpatia ou conaturalidade que os santos têm entre eles, através das maiores diferenças de tempo e de cultura. Esta simpatia dos santos entre eles é o fruto da sua simpatia com Deus, do íntimo conhecimento de Deus que Dinis designa precisamente como «simpatia com o divino», conhecimento místico que é imensamente superior ao conhecimento adquirido pelo estudo (cf. Nomes divinos, II, 9).

Na mesma graça do Carmelo, santa Teresa de Lisieux, que Edith Stein conhecia e admirava, exprimia de forma simples e genial a unidade da «ciência dos santos» ao considerar a sua fonte única: «a oração que abrasa com um fogo de amor». É assim que ela não temia afirmar, no fim da sua autobiografia:

«Não foi precisamente na oração que os santos Paulo, Agostinho, João da Cruz, Tomás de Aquino, Domingos e tantos outros ilustres Amigos de Deus beberam essa sabedoria divina que extasiou os maiores génios?»

A pequena Teresa percebia intuitivamente, «a partir de dentro», a unidade da teologia dos santos, primeiro representada pelo apóstolo Paulo e todos os teólogos inspirados, autores da sagrada Escritura (aqueles a quem Dinis reserva exclusivamente o título de «teólogos»), e depois pelos Padres da Igreja (Agostinho), os santos doutores medievais (Tomás de Aquino) e os místicos (Francisco e João da Cruz). Doutora da Igreja, Teresa é também ela, com o doutor místico João da Cruz, uma testemunha privilegiada desta «ciência divina» mais que genial. Se a fundamental «conaturalidade» de Edith Stein com Dinis é em primeiro lugar a conaturalidade da santidade e do conhecimento místico, ela é inseparável de uma profunda «conaturalidade filosófica». A santa filósofa do século XX reúne interiormente o mais filósofo de todos os Padres gregos, aquele que levou, mais longe e da forma mais audaciosa (um dos termos característicos de Dinis é o verbo tolman, «ousar»), o que se poderia chamar «a inculturação filosófica» da fé cristã. Assim o seu tratado dos Nomes divinos, que culmina na contemplação da Bondade, da Beleza, do Amor (agapè e éros), do Ser e da Unidade de Deus, é ao mesmo tempo uma obra prima da teologia cristã enquanto interpretação eclesial da Escritura, e uma obra prima da filosofia neoplatónica, ou antes é a obra prima de uma teologia cristã que integra a filosofia neoplatónica.

Entretanto, enquanto que são Tomás comentou o livro dos Nomes divinos, que é a obra mais especulativa de Dinis, e são João da Cruz se referiu sempre à sua Teologia Mística, Edith Stein concentra a sua atenção na Teologia simbólica. Tais são com efeito os três aspectos, as três dimensões, ou antes as três polaridades da mesma teologia cristã segundo Dinis: a teologia mística é o mais elevado conhecimento de Deus na escuridão e no silêncio, para lá de toda a linguagem, de todo o conceito, de toda a ideia, de toda a imagem e de todo o símbolo; a teologia simbólica exprime o conhecimento de Deus na mais concreta e na mais incarnada linguagem, a da imagem e do símbolo; a teologia noética, ou especulativa, exprime o mesmo conhecimento de Deus na linguagem mais abstrata do conceito e da ideia.

A clara distinção destas três polaridades da teologia cristã é sem dúvida o aspecto mais fecundo e mais genial da síntese dionisíaca. Certamente estas polaridades estavam concretamente apresentadas nos Padres que o tinham precedido (tanto em Orígenes no Oriente como em Agostinho no Ocidente), mas sem serem identificadas de maneira tão precisa. Ao distingui-las claramente, Dinis fornece o grande quadro teórico que permite integrar, interpretar teologicamente e perspetivar, não apenas os seus predecessores, mas também os seus sucessores que são os doutores e os místicos. Pois a paternidade de Dinis exerce-se tanto em relação aos grandes doutores medievais tais como Tomás e Boaventura, como em relação aos grandes místicos tais como João da Cruz e o Cardeal de Bérulle. Todos podem inscrever-se no quadro que ele fixou e do qual ele faz a mais luminosa apresentação no capítulo III da sua Teologia mística. Tal é sem dúvida o aspeto mais fascinante do corpus dionisíaco: ele une o máximo da mística, o máximo do pensamento filosófico e o máximo da expressão simbólica e poética. A linguagem especulativa e a linguagem simbólica são constantemente utilizadas em eco uma da outra, e ao mesmo tempo relativizadas graças à ultrapassagem de toda a linguagem no santo silêncio da teologia mística.

Como todos os Padres, Dinis exprime sempre a sua doutrina referindo-se à sagrada Escritura, que é propriamente a Palavra de Deus, Theologia, a Teologia. A respeito disto, é notável que Dinis só empregue a expressão «os teólogos» (oi theologoi) para designar os autores da Escritura, autores inspirados que transmitiram por escrito a Palavra de Deus. Assim, os «teólogos» de que ele fala são tanto o profeta Isaías como o apóstolo Paulo. Mas segundo o costume oriental, é a são João que pertence da forma mais iminente o título de teólogo (cf. Carta X). Assim, para Dinis, as três polaridades que representam a teologia mística, a teologia simbólica e a teologia especulativa não são mais que polaridades da Escritura, enquanto Palavra de Deus ressoando na Igreja. São modalidades essenciais da interpretação eclesial da Escritura.

A teologia mística é para ele a coroação de toda a teologia, é a teologia mais elevada e mais científica; é para ela que convergem a teologia especulativa e a teologia simbólica. Ora, é preciso na verdade reconhecer que a nossa perspetiva moderna, herdada da teologia universitária da Idade Média, é muito mais pobre, funcionando a maior parte das vezes segundo a bipolaridade: teologia e espiritualidade, sendo então a teologia reduzida á simples polaridade especulativa, racional, sem que sejam verdadeiramente integradas a simbólica e a mística. Nesta perspetiva muitas vezes hoje admitida de forma acrítica, a simbólica e a mística já não entram verdadeiramente no campo da teologia.

Em todas as obras de Dinis, a polaridade da teologia mística é sempre a mais presente e a mais operante: é ela que em particular conserva e guarda vivo o sentido da transcendência de Deus, relativizando todo o conceito e todo o símbolo e mesmo toda a visão. É conveniente citar a este propósito uma passagem da Carta I:

«Se sucede que, vendo Deus, compreendemos o que vimos, é porque não vimos o próprio Deus, mas alguma das coisas conhecíveis que lhe devem o ser.»

Então, mesmo a mais especulativa teologia, as dos Nomes divinos, torna-se uma oração, um louvor, literalmente um «hino». Mais tarde, no século XI, é no mesmo espírito que santo Anselmo exprimirá em forma de oração, no Proslogion, o máximo da sua reflexão teológica e filosófica. Na verdade é preciso reconhecer que deste ponto de vista, a teologia universitária dos séculos seguintes marcará não um progresso mas um recuo, um empobrecimento, ao não permitir mais exprimir a teologia «científica» no género literário da oração. Contudo, nos santos doutores do século XIII, esse defeito será em parte corrigido pelo seu ensinamento sobre a fé, a esperança e a caridade como «virtudes teológicas». É assim que convém traduzir literalmente a expressão de são Tomás, virtutes theologicae, ultrapassando a enganadora distinção entre o «teológico» e o «teologal».

Poderíamos dizer que estra teologia em forma de oração é a que «desposa» da forma mais perfeita a Palavra de Deus: é a resposta do homem a esse Deus que lhe falou pelo seu Filho (cf. Hb 1, 2), a sua Palavra eterna. A função crítica» da teologia é fundamentalmente o julgamento penetrante e misericordioso que o Cristo, Palavra viva de Deus, exerce no coração de todo o homem. É ela, a Palavra, que é «crítica (kritikos) dos sentimentos e dos pensamentos do coração» (Hb 4,12).

No seguimento de Dinis, Edith insiste fortemente no facto de que o Teólogo é o próprio Deus. A sua Palavra exprime-se na Criação e mais ainda na Incarnação.

Deus pode ser nomeado o «Teólogo primordial» (Ur-Theologe). Toda a criação é a sua «teologia simbólica» [...] e o primeiro dos teólogos não é mais que o Cristo, a Palavra viva de Deus.

E reside aí o grande paradoxo da teologia simbólica, tão bem trazido à luz pela nossa santa. Porque se refere essencialmente ao mundo sensível, material, corpóreo, esta teologia parece ser a mais baixa, mas de alguma maneira ela torna-se a mais elevada por causa da Incarnação, porque a Palavra se tornou carne. O Corpo de Jesus torna-se então a suprema teologia, o Livro santo por excelência, a expressão definitiva e a inscrição total da Palavra de Deus, pois «Nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade» (Col 2, 9).

Dinis insiste no lugar privilegiado da teologia simbólica na Escritura, e mais ainda sobre o facto de que é a teologia do próprio Jesus nas parábolas e acima de tudo na Eucaristia, o «Símbolo dos símbolos». Edith Stein vai sem dúvida além da carta de Dinis, mas ela é totalmente fiel ao seu espírito acabando todo o seu estudo por esta espantosa afirmação:

Se quiséssemos tratar com um olhar teológico o tema «Deus, Teólogo primordial», deveríamos tomar por fundamento a Palavra propriamente divina, o Verbo divino. Mas é então o Verbo feito carne que seria preciso considerar como o Símbolo primordial (Ur-Symbol).

Esta audaciosa expressão da santa carmelita mostra de forma luminosa como o coração da simbólica cristã é a própria Pessoa do Verbo incarnado, de Jesus, que une Nele da forma mais íntima o visível e o invisível, a Divindade e a Humanidade, o Verbo e a Carne. Poderíamos dizer que Jesus é «a expressão corpórea de Deus». Como indica a sua etimologia, o Símbolo é a reunião, a junção de Deus e do homem na Pessoa de Jesus. Essa junção realizou-se no seio da Virgem Maria, da qual são Lucas nos diz que ela «guardava (sumballousa) todas as coisas no seu coração» (Lc 2,19). Assim, na teologia cristã, a polaridade simbólica é totalmente privilegiada porque representa a teologia mais incarnada, privilegiada pela Palavra incarnada, expressão do seu próprio mistério em palavras e em atos. Muito longe de ser inferior à teologia especulativa, é-lhe superior porque desposa melhor a Incarnação. Nesta luz, a opção de João da Cruz pela poesia tem o valor de uma escolha metodológica: é a opção preferencial pela teologia simbólica em relação como o Cristo Esposo, para exprimir a inexprimível união de amor com Ele.

Esta mesma teologia simbólica é representada de forma iminente por Catarina de Sena e Teresa do Menino-Jesus, doutoras da Igreja. Ambas se referem sempre à Pessoa de Jesus, o Verbo incarnado. Mas enquanto Catarina fala sempre diretamente do Corpo e do Sangue de Jesus, a maior parte das vezes Teresa fala deles indiretamente através dos símbolos da flor, da rosa, etc. A linguagem do corpo humano e da Criação é a mais universal e a mais profunda, falando profundamente ao coração humano, que é sempre o mesmo, para lá de todas as diferenças culturais, é acessível aos fiéis mais simples (Catarina era iletrada, e Teresa reúne os mais pobres e os mais pequenos no mundo inteiro).

No seguimento de Dinis, nesta sinfonia de santas e de santos, nesta perspetiva cristocêntrica que une sempre de forma concreta e viva os mistérios da Incarnação e da Criação, Edith Stein convida-nos então a redescobrir hoje esta dimensão essencial da teologia cristã que é a teologia simbólica.

Fr. François-Marie Léthel, o.c.d.
Professor de teologia
na faculdade de Teresianum (Roma)


[1Ser finito e Ser eterno, p. 381-382, n. 42.

Alguma mensagem ou comentário ?

Fórum requer assinatura

Para participar nesse fórum, deve estar previamente registado. Por favor indique a seguir o identificador pessoal que lhe foi fornecido. Se não está registado, deve inscrever-se.

Ligaçãoinscrever-sepalavra - passe esquecida ?