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A SABEDORIA É UM REFLEXO DA LUZ ETERNA (V. Sb 7,26)

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Da pessoa - anexo I

terça-feira 28 de Fevereiro de 2017

Destaques:

"O que é a pessoa, percebe-mo-lo ao ver em que mundo de valores ela vive, a que valores ela é sensível, e eventualmente que valores ― guiada por outros valores ― ela cria."

"No seu conjunto, a personalidade humana apresenta-se-nos como uma unidade de um género qualitativo próprio, formada a partir de um núcleo, de uma raiz formadora. Ela é constituída por alma, corpo e espírito, mas apenas na alma a individualidade se exprime no estado puro e sem mistura."

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CONTRIBUIÇÃO PARA A FUNDAÇÃO DA PSICOLOGIA
E DA CIÊNCIA DO ESPÍRITO [1]

[Carácter, alma e núcleo da pessoa.]

Naquilo que chamamos o «carácter» no sentido mais estrito, é a própria pessoa que parece presente, enquanto que as suas outras qualidades lhe são mais exteriores. E embora ― enquanto portadoras de tais qualidades «anexas» ― lhe possa ser atribuído um valor, não é no entanto o seu próprio valor, tal como ele nos aparece no «carácter». Ora, face a uma pessoa a «atitude natural» é de «tomar posição»; a pessoa apresenta-se não como um ser axiologicamente neutro, mas como um ser que «vale» e a resposta axiológica [Wertantwort] é o comportamento «natural» relativamente a ele, e portanto igualmente a respeito das qualidades nas quais o seu valor mais claramente se manifesta.

Destas considerações retemos que há qualidades mais intimamente ligadas à personalidade que as qualidades intelectuais. Não se trata apenas da constituição especificamente ética da pessoa ― da receptividade aos valores morais e da disposição a deixar-se determinar por eles ― mas [...] da abertura aos valores em geral, das diversas capacidades que são as condições de todas as formas de intuição dos valores. O que é a pessoa, percebe-mo-lo ao ver em que mundo de valores ela vive, a que valores ela é sensível, e eventualmente que valores ― guiada por outros valores ― ela cria.

Este «estar-mais-próximo», este «pertencer mais propriamente» a uma pessoa, que podemos reivindicar para as qualidades do «sentido afectivo» [Gemüt], pode ainda ser abordado por outro lado. A personalidade «sai dela mesma», naquilo em que vive e cria valores, ― como na apreensão do mundo exterior ou de conexões teóricas. Mas ainda que as actividades intelectivas não brotem do interior, não subam das profundezas do Eu, estas profundezas são despertadas na vida afectiva e volitiva; com o que é próprio do seu estar-junto-de-si, a alma abre-se ao mundo dos valores. A vida afectiva e o carácter são impregnados de qualidades «adormecidas» da alma. A forma como ela é em si, reflecte-se nas qualidades do carácter. Que um homem veja bem ou mal, que a sua memória seja mais ou menos fiel [...], que pense rapidamente, lentamente ou pouco claramente, com tudo isso a alma permanece inalterável, e tudo isso não é absolutamente nada influenciado por ela qualitativamente.

O pensamento não trai nada da pureza e da profundidade da alma ― mas antes, efectivamente, os motivos que a guiam, assim como a vida afectiva. Como acolhemos os valores e como nos relacionamos com eles: como desfrutamos, como nos alegramos, como nos compadecemos e como sofremos, tudo isso depende da constituição da alma.

Devemos tentar aproximar-nos desse qualquer coisa de misterioso que é a alma. Segundo os Gespräche von der Seele de H. Conrad-Martius [2], o que é próprio dos seres dotados de uma alma ― diferenciando-os dos espíritos elementares, os quais se caracterizam por só terem uma configuração somato-psíquica [leiblich-geistige Figuration] ― é de terem neles mesmos um peso e um fundamento fixos. Enquanto que esses seres espirituais são levados para a esfera espiritual à qual pertencem, o homem «desabrocha» da sua alma, que forma o centro do seu ser. Esta posição central não significa no entanto que a totalidade do eu, que se desdobra em alma, corpo e espírito, seja formada e estruturada a partir da alma. Antes efectivamente, a alma sai de uma raiz que determina tudo o que é o ser espiritual [Seelenwesen] individual. Se consideramos esta raiz ou este «núcleo» como a força formadora de onde finalmente procede o ser do indivíduo, é preciso sermos claros sobre isto: não é todo o ser e o devir físicos e psíquicos que se ligam a este núcleo e que são formados por ele. Há processos físicos e psíquicos que não significam nada para a forma unitária, para a «personalidade», e que não têm a sua marca. Isso não vale para alma. Tudo o que é «alma» está enraizado neste núcleo. Mas tudo o que, na ordem psíquica, não é um espelho, uma expressão da alma, e todo o psíquico que não exprime nada da alma ― realidade durável e actualidade de vida ― não é nem «nodal» nem «radical» e sai fora da unidade da personalidade individual. Há uma experiência actual na qual ― segundo uma imagem de H. Conrad-Martius [3] ―a alma não está «engrenada», uma experiência que não passou pelo «si central». Isso faz parte da unidade da psique, mas não procede do núcleo, e a alma não toma parte nisso. É surpreendente que tais acontecimentos «sem alma» abranjam não apenas acontecimentos com os quais a alma, por princípio, não tem qualquer relação ― acontecimentos tomados no domínio da sensação ou do intelecto ―, mas igualmente afectos nos quais a alma normalmente se manifesta. «A esfera afectiva ― é assim que Conrad-Martius caracteriza estes estranhos fenómenos ― parecem-me, como o “corpo” da alma, ou como o seu si periférico específico; assim como, no corpo físico, cada impressão externa é imediatamente sentida, também neste “corpo” da alma, cada impressão interna é registada; mas enquanto ela não estiver relacionada com o centro, não passa de um sistema de impressões superficiais ― um simples jogo de excitações e de reacções. O principal da alma não se resume a esta região de experiências e de reacções particularmente sensíveis; com ela, apenas percebemos o “invólucro” da alma». ― Voltaremos a este estranho comportamento «despido de alma».

Para já, procuramos abordar a natureza da alma por um outro lado ― com a ajuda do contraste entre espírito e alma que encontramos no tratado citado mais acima: «O que é o espírito, ou o que provém do espírito, nunca chega a fixar-se em si, nunca tem uma determinação ontológica estabelecida, e devido a isso também não tem verdadeiro peso [4].» A natureza do espírito (do espírito subjectivo, é preciso dizer mais precisamente), seria portanto a sua actualidade. Mas então é preciso perguntar-se o que, relativamente a isso, significa «determinação ontológica»,«peso». Este tratado contém uma passagem relativa ao duplo sentido destes termos. Á actualidade do vivenciado é primeiro oposta a fixação de «qualidades duráveis», de «capacidades», de «disposições». Uma tal fixação ontológica não depende, num primeiro sentido, mais da alma que do espírito. Num sentido transposto, podemos falar de qualidades do espírito como falamos de qualidades dos sentidos ou da alma ― segundo as diferentes vivências actuais que correspondem a estas «faculdades». Mas as faculdades enquanto tais são originariamente psíquicas. Esta fixação é baseada na natureza da psique. Um ser somato-psíquico pode abandonar o mecanismo da estrutura psíquica (assim como o peso «terreno», se não for toda a corporeidade em geral) e no entanto conservar a sua alma e um peso de uma outra ordem, que é inseparável dela. Não cessa de viver da sua alma como de uma «fonte mais longe», o seu ser resplandece na actualidade da vida que procede das suas profundezas. , sem se esgotar totalmente. E este ser da alma não é um conjunto de propriedades duráveis como o é a psique; não podemos exprimi-lo por qualidades designáveis.

Exprimiremos ainda de outra maneira a diferença entre espírito e alma. Com o espírito, estamos simplesmente em contacto com o mundo, enquanto que a alma assume nela o mundo, nela o mundo é «juntamente derramado», e isso de uma maneira singular em cada alma individual. A isto, devemos acrescentar que não há, de todos os «objectos», uma apreensão simples ou uma recepção tal que, segundo o que acaba de ser descrito, ela seria de natureza «espiritual». Em princípio, um ser «carregado de valor» [werthaft] só pode ser apreendido de uma maneira adequada quando a alma se abre a ele; e toda a apreensão plena de um tal ser é uma recepção «na» alma, e daí o facto de uma alma que sai «de» si. Não é pois menos uma actividade do espírito. A fronteira entre espírito e alma, que parecia tão firmemente traçada, arrisca a apagar-se novamente, e talvez seja efectivamente impossível manter esta estrita separação. A vida da alma, na medida em que ela é um sair-de-si, um confrontar-se-com-o-mundo, é uma actualidade do espírito [5]. Mas o ser da alma, que está na base desta actualidade de vida, deve considerar-se não espiritual? Não deve antes dizer-se que o espírito, na medida em que ele toma forma e se delimita como o centro de uma personalidade assente nela mesma, é a alma?

Estas primeiras clarificações levantam uma série de questões. O que é a alma, a alma individual, não se exprime, dizíamos, em qualidades designáveis. O seu ser, tal como o núcleo no qual ela está enraizada, é simplesmente individual, indissolúvel e inominável. E no entanto temos falado de «qualidades adormecidas» da alma, que lhe reaparecem no seu estar-junto-de-si, e nomeámos tais qualidades: pureza, bondade, nobreza,etc. Estas duas asserções só são aparentemente contraditórias. Estas qualidades não são propriedades duráveis, constitutivas do ser da alma. Mas também não são simples aspectos factuais de experiências flutuantes. Elas são aquilo de que a alma constantemente se enche: elas não a enchem de fora, mas brotam constantemente do seu fundo, e o ser da alma brilha nelas.

A alma e as qualidades "adormecidas que a enchem ― aquilo do qual partíamos ― têm um significado particular para o que chamávamos o carácter da pessoa no sentido estrito. As qualidades do carácter, enquanto capacidades para fazer a experiência de valores, não pertence elas-mesmas à alma, tanto como ao núcleo da pessoa; mas desdobram-se nela em direcção ao exterior, e mostram o que enche a alma interiormente [...].

Por oposição às faculdades psíquicas, inferiores ou superiores, o núcleo da pessoa e o ser da pessoa que ele determina não manifestam nenhuma evolução. A vida da psique é um processo evolutivo no qual as suas capacidades chegam à maturidade. As condições desta maturação são as forças de que a pessoa dispõe, e as circunstâncias exteriores sob o império das quais a vida se desenrola; por fim as disposições inatas que no processo evolutivo se desenvolvem mais ou menos. As circunstâncias exteriores desempenham um duplo papel: por um lado, elas determinam o crescimento ou a diminuição da força vital, e orientam a evolução, certamente dentro dos limites das disposições originárias. Quem não tem nenhum dom para as matemáticas, mesmo o ensino mais perfeito não fará dela um matemático. Quanto a saber para que domínio particular vai voltar-se um indivíduo dotado, isso pode depender de circunstâncias exteriores às quais ele deve a orientação do seu espírito. A disposição inata está na base, e não se desenvolve a ela -mesma. Em condições favoráveis, desenvolver-se-à mais que em condições desfavoráveis, mas ela-mesma não recebe nada de novo e não perde nada do que é dado.

Devemos considerar agora a relação da alma e das suas qualidades, no que diz respeito a essas disposições originárias e a esses dons inatos. Não representam eles apenas uma fracção, a saber as disposições que reunimos sob o título de «propriedades do carácter» [6] ? Certamente que não. As disposições inatas são pré-formadas nas correspondentes qualidades. Para a alma e as suas qualidades, não existe a oposição entre desenvolvido e imaturo. Para a pureza, a bondade, a nobreza, não há circunstâncias exteriores que as possam favorecer ou impedir o respectivo desenvolvimento. É certo que as circunstâncias exteriores podem levar a praticar bons ou maus actos, e da mesma forma dar ocasião a formarem-se as disposições correspondentes. As «virtudes» e os «vícios» podem ser adquiridos sob o efeito de bons ou maus «exemplos». A pureza interior da alma não é por eles tocada. Pode ainda manifestar-se na maneira de conduzir uma acção «censurável», da mesma forma que actos «louváveis» não excluem uma abjecção interior e podem conter a respectiva marca. O fariseu é exactamente o tipo de homem que apenas faz apelo ao seu «carácter» e aos seus «actos», e que não tem em qualquer conta a esfera interior. Esta esfera interior, enquanto que subtraída a todas as influências, é inacessível não apenas às influências externas, mas igualmente à auto-educação. Todo o trabalho sobre si-mesmo, todos os esforços realizados com vista a uma purificação da alma, apenas podem consistir em reprimir tendências psíquicas e actos de qualidade negativa, em combater ou em não deixar que se manifestem as disposições para estes actos, e por outro lado em abrir-se a valores positivos. Mas não podemos adquirir ou desfazer-mo-nos de qualidades da alma. Se surgir uma transformação neste domínio, não se trata do resultado de um «desenvolvimento»; é preciso considerar isso como o efeito de uma força vinda de «mais longe», quer dizer de uma força exterior à pessoa e a todas as conexões naturais em que ela se encontra colocada.

Se devemos recusar a ideia de um «desenvolvimento» da alma, de uma maturação e de uma transformação de qualidades interiores ― à maneira de capacidades psíquicas ―, existe no entanto um crescimento e uma maturação da alma que se deve cuidadosamente distinguir de uma tal evolução. Ela não se mostra desde o começo da evolução psíquica do indivíduo; só se torna visível progressivamente. E se o mundo «se junta sempre de novo em cada indivíduo humano [7]», isso significa que a alma é ela-própria, e sempre nova. Sob a cobertura do desenvolvimento psíquico, a alma amadurece e imprime a sua marca a este desenvolvimento, sem ela-própria se submeter à determinação deste. É preciso distinguir a própria maturação e aquilo que desta se manifesta na actualidade da vida e no desenvolvimento do carácter. Para a manifestação, a expansão da alma, o contacto com o mundo não é visivelmente indiferente. Mas este género de contacto é completamente diferente do impacto de circunstâncias exteriores sobre o desenvolvimento das disposições originárias. Para que uma dada disposição possa desabrochar e para que a faculdade psíquica correspondente possa desenvolver-se, são indispensáveis determinadas circunstâncias exteriores: para um talento artístico, por exemplo, o contacto com os valores estéticos correspondentes. É impossível dizer o que pode provocar o «despertar» da alma. Tudo e não importa o quê pode de repente penetrar nas suas profundezas, quando até aí nada tinha o tinha conseguido. E quando isso acontece, não é esta ou aquela faculdade que se desenvolve; é toda a riqueza da alma que se derrama na actualidade da vida e que nela se manifesta; e então a vida é «cheia de alma». Se ao contrário considerarmos o comportamento «de algum modo sem alma» de que falávamos mais acima, percebemos toda uma série de diferentes possibilidades. Há o caso de vivências periféricas desenvolvidas porque ainda não foram acordadas as profundezas da alma. Então os próprios afectos, que têm «como coisa particular» a pretensão de ser vividos nas profundezas, só se desenvolvem na periferia; e enquanto não conhecer as suas próprias profundezas o indivíduo não sente isso como um défice. Em compensação, assiste-se a uma fuga das profundezas para a periferia quando a vida espiritual de uma pessoa se torna uma tortura para ela, quando a alma fica cheia de desespero. Neste caso, a alma está acordada embora a sua vida própria seja relegada para um plano posterior a favor da periferia. É possível que esta ocultação não obtenha sucesso, e que a vida das profundezas se manifeste na vivência periférica e lhe confira a sua coloração. Se, pelo contrário, a «fuga» tiver sucesso, o desespero permanece no fundo da alma, ao passo que o eu se desdobra completamente na actualidade da vida periférica.

Uma tal exclusão da alma é arbitrária. A sua contrapartida é um esgotamento da vida, uma esclerose da alma, que se instala apesar de todos os esforços, um enfraquecimento da vida. O eu desce às suas profundezas, permanece nele mas descobre um vazio medonho; tem a impressão de ter perdido a sua alma, de não passar de uma sombra de si mesmo, de estar separado do seu ser. (É preciso distinguir claramente esta espécie de «ausência de alma» da do indivíduo que ainda não foi despertado para a vida da alma, que se identifica com a totalidade da vitalidade.) À primeira vista esta situação parece completamente enigmática. Pergunta-mo-nos o que de facto falta, e o que está presente. Pois a alma que não comparece perante vós está no entanto presente em toda a sua especificidade ― apenas não nos recordamos de ter alguma vez possuído algo de semelhante.

Para vermos isso com clareza, devemos em primeiro lugar saber o que significa viver a partir da alma. Isso não significa apenas que a vida actual reflecte as qualidades da alma, mas que emana dela que é a sua vida. Por várias vezes, tentámos descobrir as origens da vida psíquica. Falámos da vitalidade sensual e psíquica e vimos que as forças psíquicas provêm em parte dos objectos, e que, por outro lado, têm origem no interior do indivíduo psíquico. Sem dúvida chegámos a esta fonte originária «interior». A própria alma é fonte de vida. Quando ela desperta, estas novas forças irradiam para a vida do espírito e o mundo abre-se de algum modo como novo ao indivíduo que o vive. Se ele não vive das suas profundezas, a partir da alma, as suas forças são perdidas para a vida. Ora, pode acontecer que a alma, sem ser excluída, cesse de dar a vida. A fonte que nela esconde pode secar. O mundo ainda se concentra nela, mas ela não já não se pode inflamar com isso, ela já não tem "respondente". A disponibilidade para os valores enfraquece, e mesmo as «qualidades adormecidas» parecem ter desaparecido: a bondade já não irradia em atitudes positivas e em actos benevolentes, o interior parece estar vazio de tudo o que o enchia e em virtude do quê a própria individualidade inominável se exprimia. Uma tal falha na vida de uma pessoa pode produzir-se quando um «golpe do acaso» devora todas as energias da alma; mas ela também pode enfraquecer pelo constante abuso das suas forças; é preciso então que novas forças lhe cheguem de outras fontes, para que ela seja despertada para uma nova vida [8].

Sempre que a alma é excluída da actualidade da vida, falta ao comportamento e ao ser visível do indivíduo a nota individual ou, como nós dizemos, «pessoal»; mesmo se continua a viver no seu estilo próprio e, visto de fora, conserva a sua postura, esse estilo próprio está ferido de inautenticidade. A vida deste indivíduo é movida por forças sensuais, ou eventualmente pela vontade, ou ainda é levada por forças psíquicas exteriores, mas não procede do fundo do seu próprio ser; falta-lhe assim a originalidade e autenticidade da vida conduzida pelo seu «núcleo». Podemos imaginar indivíduos que, pura e simplesmente, não têm um centro próprio, e que devido a esse facto têm falta de personalidade e de individualidade (qualitativa). Quanto ao homem, não se poderá falar de comportamento «despido de alma», a não ser no sentido em que ainda não se encontrou a si próprio ou temporário se perdeu, e enquanto a sua individualidade não for reconhecível (o que não impede pensar como realizado o caso limite de um comportamento «absolutamente» despido de alma, em que não se trataria apenas de um mais ou menos). Por princípio , ele possui um tal centro, que a todo o momento pode ressurgir. Por outro lado, é preciso dizer que apenas nos seres dotados de alma a alma e a individualidade, ou a originalidade pessoal, estão incondicionalmente ligadas. Os espíritos elementares, que não têm alma, constituem no entanto, a partir de uma raiz formadora, uma personalidade unificada em espírito e em corpo. Neles, a ausência de alma não significa uma falta de individualidade. A censura de falta de individualidade, relacionada com esta ausência de alma, só faz sentido quando existe um carácter de alma [Seelenhaftigkeit], quando a estrutura somato-psíquica faz apelo a uma procura de um centro, sem que no entanto ela seja formada de parte a parte a partir de um tal centro. A plasticidade do psiquismo, a influência que nele exercem forças exteriores formadoras, permite (como uma possibilidade de princípio) que um indivíduo psíquico apenas seja a réplica de uma individualidade autenticamente dotada de uma alma e que não seja formado do interior, a partir de um núcleo próprio. Distinguimos o crescimento da alma e a sua manifestação nas qualidades em que ela se exprime, e o desenvolvimento das disposições originárias em verdadeiras capacidades psíquicas. De um e de outro lado, a energia vital desempenha um papel, mas um papel muito diferente. As disposições inatas têm necessidade de forças renovadas, e a vida actual deve ser orientada na sua direcção para se poderem desenvolver. Para o seu crescimento, a alma não necessita do contributo de forças. Ela tem nela mesma as suas forças, e usa-as em benefício do desenvolvimento psíquico quando amadurece e acede à actualidade viva. Se as suas forças interiores são destruídas pelo mundo ao qual se abre, ela não sofre uma «regressão», como seria o caso de uma capacidade psíquica à qual as forças necessárias viessem a faltar; retira-se sobre si mesma, torna-se ineficaz e, devido a isso, invisível. A alma não é nem um desenvolvimento a partir de uma disposição inata, nem uma disposição originária própria para qualquer coisa. O contraste entre «acto» e «potência» tal como o encontramos nos movimentos vitais actuais e nas faculdades psíquicas correspondentes, não tem lugar aqui. E no entanto, observamos entre a alma e certas disposições originárias relações particularmente próximas que ainda devemos procurar elucidar.

Ao contrário da alma e das qualidades que nela «dormem», vimos que a receptividade aos valores de todos os níveis e o género de comportamento (pessoal) relativamente a eles, depende tanto da energia vital como das circunstâncias exteriores da vida. Aqui há desenvolvimento e processos de formação; distingue-se entre disposição inata e carácter desenvolvido. A questão é a de saber como esta disposição originária a que chamamos qualidades do carácter, está relacionada com a alma e com o núcleo da pessoa ― dos quais aproximámos a vida afectiva. A receptividade estética desenvolve-se, exerce-se e constrói-se em experiências estéticas actuais, e estas exigem o contacto com os objectos estéticos. Mas cada experiência estética tomada isoladamente traz a marca de uma nota pessoal que a alma traz nela, que lhe é inerente ― independentemente de toda a actividade externa. E esta «nota pessoal» é a mesma em cada experiência similar e na própria qualidade, e não conhece nem aumento nem diminuição em curso de evolução.

As qualidades «adormecidas» e as disposições caracteriais inatas são ambas essenciais na formação da vida afectiva e volitiva. Esta vida surge das profundezas da alma e traz em si a marca da sua especificidade; ela dá testemunho além disso de uma receptividade que, em si, não faz parte das qualidades da alma, mas está enraizada no núcleo pessoal a partir do qual a própria alma é formada. A receptividade aos valores e os centros de irradiação da actividade criadora têm precisamente esta profundidade que atribuímos às qualidades «adormecidas». Estão inscritas no núcleo da pessoa. Às diferentes disposições de carácter correspondem diferentes níveis de profundidade correlativamente ordenados segundo a hierarquia dos valores, dos actos e das obras. Quanto mais elevado é o valor, mais profundo é o ponto de ancoragem da experiência do valor e dos comportamentos que por ele são motivados. Não mais que as qualidades «adormecidas», os níveis profundos não se desenvolvem. Eventualmente manifestam-se, em certas «ocasiões» num comportamento que procede deles, abrem-se assim para fora, mas existem actualmente antes deste género de manifestação. «Superficialidade e «profundidade» pertencem, elas-mesmas, ao que constitui a alma no seu estar-junto-de-si. Para o resto, as qualidades «adormecidas» subdividem-se naquelas que enchem todas as camadas da alma e que impõem a sua marca a toda a experiência em que a alma está interessada ― como a pureza, a nobreza ou a vulgaridade ―, e noutras, que certamente pertencem igualmente à alma enquanto todo indiviso, mas que têm uma particular afinidade com determinados domínios de valores e que se manifestam mais frequentemente nos comportamentos que correspondem a estes últimos, e nas camadas de que procedem: assim por exemplo da bondade, dos valores morais e do agir. Mas é sempre possível que a qualidade correspondente se manifeste no exterior igualmente em outras vivências.

No seu conjunto, a personalidade humana apresenta-se-nos como uma unidade de um género qualitativo próprio, formada a partir de um núcleo, de uma raiz formadora. Ela é constituída por alma, corpo e espírito, mas apenas na alma a individualidade se exprime no estado puro e sem mistura. Nem o corpo material, nem a psique como unidade substancial de todo o ser e de toda a vida sensível e intelectual do indivíduo, são integralmente determinados pelo núcleo. É nele que se fundamenta a disponibilidade para o mundo dos valores, cujos níveis correspondem a essas camadas em profundidade e portanto o «carácter» no sentido específico; mas o carácter formado é ao mesmo tempo dependente da natureza da psique, das forças que nela fazem lei e das capacidades psíquicas que não estão enraizadas no núcleo: faculdades sensitivas, memória e entendimento.


[1Beitrag..., p.205-215.

[2Summa, segundo caderno, Hellerau, 1917.

[3P. 133.

[4P. 119.

[5Como se se trata-se de uma personalidade base (alma) onde se apoia a personalidade dinâmica (espírito)? Surge-nos a questão. (NDTP).

[6Podemos ler com efeito, um pouco mais acima, numa passagem não reproduzida aqui (p. 204), a seguinte concisão: «Parece que a receptividade aos valores (e particularmente aos valores morais), e a maneira como na prática alguém se deixa determinar por eles, deve ser atribuída à personalidade total em vez de a outras qualidades. No que chamamos carácter ― neste preciso sentido ―, é a própria pessoa que parece colocar-se diante de nós, enquanto que as outras qualidades lhe são mais exteriores.» (N.d.T.)

[7Hedwig CONRAD-MARTIUS, p. 132.

[8Ver Beiträge..., p. 76 s.: «O repouso em Deus, relativamente ao enfraquecimento da actividade, é qualquer coisa completamente nova e única [...]. Deixando-me levar por esse sentimento [de total segurança] uma nova vida me enche pouco a pouco e [...] me torna capaz de uma nova actividade [...]. A única condição para esse renascimento da alma é uma certa disponibilidade, que se apoia na estrutura da pessoa [...] liberta do mecanismo psíquico. Qualquer coisa de semelhante é possível no relacionamento de uma pessoa com outra. O amor com que eu abraço um ser é susceptível de o encher de uma nova força de vida quando a sua está esgotada.»

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