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Da Pessoa - introdução

terça-feira 14 de Março de 2017

O texto com o título pesado e complicado, A Estrutura ôntica da pessoa e a sua problemática epistemológica, traduzido aqui pela primeira vez em francês [1], foi publicado no volume VI da edição alemã das Oeuvres d’Edith Stein: Welt und Person. As indicações, preciosas mas infelizmente raras, acerca da história deste texto, que devemos à Sra L. Gelber, e em particular a incerteza que envolve a sua datação, podem resumir-se da seguinte maneira: «A título de hipótese fundamentada, pode dizer-se que este estudo data de mais ou menos 1932, que ele é o resultado da concepção, longamente amadurecida, de Edith Stein sobre a ontologia da pessoa humana, e que foi concebido como uma leitura para universitários, nomeadamente para o seu círculo de leitores de Múnster. O manuscrito foi pessoalmente confiado, antes de 1938, ao Sr e à Sra Hermann Schweitzer, e foi remetido por estes em 1950 aos Arquivos Edith Stein com vista à sua publucação nos Werke. Os desenvolvimentos de Die ontische Struktur... estão diretamente relacionados com o pensamento elaborado em Endliches und ewiges Sein e com o estudo, inédito, que o precedeu: Akt und Potenz [2]

Esta última nota sobre as afinidades de A Struktur ontique... com a grande ontologia de 1935 justifica-se perfeitamente; nós mesmos o assinalamos ao trazer ao texto principal o acrescento de uma passagem de Endliches und Ewiges Sein (1935) («Ser finito e Ser Eterno») [3]. Mas outros três anexos, extraídos de Beiträge zur Begründung der Psychologie und der Geisteswissenschaften (1922) («Contribuições para a fundação da psicologia e das ciências do espírito»), de Seelenburg (1936) («O Castelo da alma») e de Kreuzeswissenschaft (1942) («A Ciência da Cruz») [4], mostram bem que a ontologia da pessoa que aqui apresentamos estabelece a ponte entre o que há de mais autenticamente fenomenológico em Edith Stein e o que carateriza a sua interpretação dos maiores místicos da sua ordem: Teresa d’Ávila e João da Cruz.

A pessoa é um tema contínuo na obra de Edith Stein. Em Die ontische Struktur..., este recebe, talvez, a sua forma e o seu tratamento mais completos. E sobretudo, não é sobrecarregado pela preocupação, muitas vezes demasiado sensível em Endliches und ewiges Sein, de harmonizar se não o próprio são Tomás, pelo menos o tomismo, e o que é a sua própria sensibilidade filosófica. Digo bem «sensibilidade», visto que Edith Stein é antes de tudo uma leitora extraordinariamente sensível e recetiva ao pensamento de outrem: Pensemos em Edmund Husserl, em Hans Lipps, em Max Scheler, em Hedwig Conrad-Martius, em Dietrich von Hildebrand; e quando é puramente ela própria, é precisamente para estilizar, quer dizer para significar indiretamente uma experiência pessoal, para libertar de uma vivência aquilo que é a sua essência. Ora esta vivência e esta experiência, mesmo religiosas, inscrevem-se nas categorias de um «personalismo» ao qual ela acrescenta marcas que não são nem as de Scheler, nem as de Mounier ou de Maritain, mas que lhe são realmente próprias.

O título que considerávamos complicado, A Estrutura ôntica da pessoa e a sua problemática epistemológica, pede alguns esclarecimentos. A clarificação mais imediata e mais direta deve ser procurada na concepção husserliana da filosofia como ciência rigorosa. E isto porque a ideia de uma filosofia da pessoa induz necessariamente a de uma ciência da pessoa - mesmo no sentido em que será finalmente questão de uma ciência da Cruz. Esta ciência não é portanto a da psicologia empírica, mas uma ciência da pessoa em que se articulam três instâncias principais: a alma, o espírito e o corpo, e onde a parte do Eu reserva as mais espantosas surpresas. Isso depende muito de uma análise do ser e não do sujeito do ser (étant), do ôntico e não do ontológico [5], mas mais precisamente do ser que, no seu sentido mais fundamental, é pessoa: pessoa humana ou pessoa divina, ser finito ou ser eterno. Ora, se há mesmo uma ciência deste ser «pessoal», esta abrange uma problemática específica: a problemática do conhecimento que a pessoa pode ter dela mesma; a problemática da consciência de si. A estrutura essencial da pessoa é a de um ser que se sabe, e para quem este saber de si ocasiona problemas. Se errarmos sobre esse ponto, este título não se pode justificar muito.

O que se desenvolve desta ciência é ao mesmo tempo «mundano» e «religioso» no seu conteúdo, mas formalmente, a ciência da pessoa persegue o seu objecto até às esferas da fé. Dito de outra forma, sem que se entre verdadeiramente no domínio da teologia,- que só pode tomar como objecto a realidade positiva da Revelação - a ideia de ciência estende-se da natureza à graça como sobre um único campo de investigação medido com a própria natureza- ou com a essência - da pessoa.

O primeiro tema desta ciência da pessoa é o da alma, imediatamente tomado num duplo destino ou num duplo estilo de vida: ser levada, animada de fora, pelo jogo da natureza e do mundo; ou ser libertada, conduzida, apaziguada, pelo facto de uma inserção num outro «reino» além do da natureza.

Raiz da terra, raiz do céu, poder-se-ia dizer, não reenviando a ideia de «raiz» imediatamente à solidez, mas à necessidade de extrair o seu alimento de uma fonte e de um terreno. Se a alma não estiver enraizada em algum lado, ela morre. No entanto, para passar de um enraizamento a outro, de um solo alimentício a outro, é preciso deixar-se desenraizar: e neste estado de desenraizamento, quer dizer de liberdade, o sujeito é radicalmente exposto ao vazio.

Pelo facto desta liberdade, o sujeito é então uma pessoa. Segura-se a si mesmo e pode mover-se em todos os sentidos. No entanto esta liberdade absoluta fixa-o sobre ele mesmo e condena-o a uma total imobilidade.

Esta consideração é uma das mais impressionantes deste curto tratado, pela evocação breve - densa e rápida como um pensamento de Pascal - do que Jean-Paul Sartre longamente descreveu, e no qual ele acreditava ter encontrado a própria essência da liberdade. Liberdade, certamente, mas morta; liberdade não libertada; liberdade não escravizada por um pecado, mas liberdade serva do seu próprio deslumbramento. «O Si deste Eu está totalmente vazio» e só recebe a plenitude do Reino ao qual ele se dá graças a esta liberdade.

Os dois Reinos, quer dizer as duas «plenitudes» da natureza e da graça - onde a alma está atualmente ou potencialmente enraizada - são os domínios do ser: do ser vital, opaco ou determinante, e do mais vivo, mais luminosos e mais libertador ser. Em compensação, o domínio - se é um deles - da pura liberdade é o «domínio vazio» do nada.

Uma outra formulação desta constatação metafísica poderia ser que os dois domínios do ser são os de uma necessidade, física ou espiritual, enquanto que o domínio vazio é o do arbitrário. Mas pelo facto do arbitrário ter por contrários quer a necessidade, ou sistema de razões objectivas, quer a vontade, onde por natureza se exprime a razão subjectiva, vemos que é do arbitrário que é libertada a liberdade enraizada para lá dela mesma. Isto pode dar-lhe acesso a uma liberdade reflectida, e a um livre conhecimento de si, por conseguinte fazer valer nela potências de consciência e de inteleção - de espírito - constitutivas da pessoa sem no entanto constituir o seu núcleo. Pois se o intelecto depende do espírito, é espírito, ele não poderia ser confundido com a alma, cujo núcleo vivo, a mais clara consciência, só está verdadeiramente activo neste enraizamento no Céu - ou Reino do Alto.

A este núcleo da pessoa, Edith Stein deu-lhe sucessivamente - e a alguns anos de distância - duas determinações: primeiramente, nas Beiträge..., a da sensibilidade aos valores; depois aqui, a da capacidade de dom de si às aproximações da Pessoa absoluta. Da primeira à segunda fórmula traça-se o caminho de uma ética para uma mística, de Max Scheler a são João da Cruz.

Inaugurada, na sua tese de doutoramento de 1917, pela oposição entre Einsicht («intuição intelectual») e Einfühlung («intuição - do valor - do outro»), confirmada nas Beiträge... por aquela que ela definiu entre «qualidades intelectuais» e «abertura aos valores» ou «disposição a deixar-se guiar por eles», a distinção entre espírito e alma vai tornar-se essencial. Entre os valores - teóricos ou práticos - do espírito e da alma substancialmente espiritual, quer dizer sensível já não aos valores mas às inspirações da graça, abre-se um desvio fundamental para a economia da pessoa. Por evidência, isso desloca o núcleo da pessoa para as profundezas propriamente exploradas pelos místicos - mais perto do saber que do crer, é preciso acrescentar.

O tema do espírito, ainda claramente presente nas Beiträge..., onde essencialmente se trata das «ciências do espírito», já não aparece quase nada, em A Estrutura ôntica..., a não ser sob as espécies da razão: da razão natural. Assim como Pascal, falando da ordem dos espíritos, a situa com os corpos na esfera da Natureza, também aqui se distingue, no interior da ordem natural, entre os corpos naturais e a razão natural; São certamente concebidos como radicalmente distintos, mas o domínio desta razão «natural» não constitui ainda uma esfera espiritual - uma esfera que equivale em Pascal à ordem do coração.

Se, nas Beiträge..., o termo geistig, significa ainda essencialmente as potências cognitivas distintas do núcleo da pessoa, em Die ontische Struktur..., menos de dez anos mais tarde, geistig significa «espiritual» no sentido de: o que «irradia de um centro pessoal e que nele se encontra especificado».

Estes desvios semânticos significam o progresso da análise em direção a uma «ciência da alma» cada vez mais marcada pelo caminho espiritual percorrido pela própria Edith Stein. Por isso não é de admirar que se encontrem em A estrutura ôntica... análises que remontem às suas leituras de santa Teresa d’Ávila, e que se encontram expostas na Seelenburg - texto que parcialmente retomámos no Anexo II deste volume.

Esta concepção cada vez mais espiritual da alma - como o centro mais remoto do Eu e como mais profunda capacidade de acolhimento do Espírito de Deus - induz uma ética e uma espiritualidade perfeitamente especificadas. Os seus elementos essenciais são: em primeiro lugar, as disposições negativas internas da alma, como risco de queda no irracional, depois como angústia que envolve toda a alma «que nada protege» - por conseguinte o sentido do pecado; em segundo lugar, a conversão à luz e a participação na obra da salvação pela caridade e pela oração - até tocar problemas também para nós atuais como os da salvação da natureza; em terceiro lugar, a apreensão da alma nos seus efeitos sobre o corpo - até uma teoria dos sacramentos dos quais um dos efeitos mais significativos foi o restabelecimento de um equilíbrio desfeito entre a alma e o corpo.

O conjunto destes elementos constitui o que se poderia chamar a carta pedagógica de Edith Stein. seja através das suas páginas sobre a educação das jovens (Werke, t. V, Die Frau), ou através do que deixam adivinhar a sua correspondência e determinados testemunhos dos seus alunos, vemos a prática pedagógica - no sentido escolar e espiritual - refletir e repercutir a análise teórica. Tanto a caminhada espiritual como o contacto prático com espíritos a formar e almas a guiar, não são estranhos às considerações filosóficas. O que é uma espécie de garantia de autenticidade arrisca-se evidentemente a ser criticado como uma ausência de rigor no método. Entre a psicologia e a espiritualidade, a filosofia tem por vezes alguma dificuldade em permanecer «rigorosa»; ou o rigor da disciplina pessoal corre, por momentos, o risco de se substituir à do método filosófico.

No decurso do capítulo III, consagrado aos efeitos da graça recebida e do trabalho de meditação que dela derivam, estabelece-se uma extensa passagem, de pensamento particularmente audacioso, que reenvia para preocupações inesperadas e para um tema à primeira vista estranho à filosofia da pessoa. Trata-se de uma aparente digressão sobre a questão da substituição: pode um homem substituir outro na relação entre falta e punição? e com que direito? Sublinhamos direito, pois de facto é à obra mais jurídica de Edith Stein, às suas considerações sobre o Estado, que então somos reenviados. Com efeito, numa extensa nota consagrada à noção de falta [6], o nosso autor é conduzido a distinguir entre falta jurídica e falta moral, a interroga-se sobre as formas de punição relativas a estas situações, sobre a relação da pessoa com a punição, sobre o significado da expiação, sobre a execução da pena (e da recompensa em caso de mérito); enfim sobre a possibilidade de considerar o juiz humano «jurídico» como o representante do Juiz divino «moral». Todas estas considerações visam em definitivo designar o que é próprio do direito, da esfera jurídica, apesar das suas notáveis afinidades com a esfera moral e religiosa. Em A Estrutura ôntica... vemos afinar-se a problemática anunciada em Do Estado através de uma pergunta: porque é que a pena deve atingir o culpado (ou qualquer outra pessoa «no seu lugar»? Ela será retomada aqui na perspectiva propriamente espiritual de uma imitação de Cristo. Substancialmente a pergunta é então: é essa a punição ou a pena que o Salvador substituidamente aceitou em vez e no lugar de um outro, quer dizer do homem pecador?

Não há qualquer dúvida de que os desenvolvimentos que intervêm aqui têm por fundamento as reações de Edith Stein, expressas no seu trabalho sobre o Estado, a determinadas teses de Dietrich von Hildebrand. Essas afinidades devem sublinhar-se para que a ontologia da pessoa que tratamos aqui apareça, o mais possível, no seu mais completo contexto. Tendo sido feita a tradução de Do Estado com os nossos cuidados, pode o leitor facilmente encontraras referências a que fazemos alusão.

No estudo que introduz a nossa tradução deste último texto tínhamos sido conduzidos a pôr em paralelo o Eu do Estado e o Eu da Pessoa, mas precisamente na perspetiva de uma liberdade vazia: «[...] o paralelismo, escrevíamos nós, entre liberdade pessoal e soberania estadual permite "compreender porque é que se considera com mais boa vontade o Estado que o povo como uma pessoa, ainda que em outros pontos de vista [...] o povo pareça mais próximo da personalidade individual". [...] para a pessoa [...] como para o Estado só há existência, quer dizer vida e história, dentro de uma realidade substancial: quanto à pessoa o reino da Natureza e da Graça, - quanto ao Estado, a comunidade popular à qual ele dá a sua forma estadual [7]

No entanto o Eu não é a última fórmula da pessoa. É em definitivo ao indivíduo que Edith Stein confia, se assim se pode dizer, a dignidade da mais autêntica personalidade; como se o Eu, o ego, pudesse ainda não ser mais que uma forma geral, uma essência puramente inteligível, um possível, enquanto que o indivíduo é sempre real, existente. Ou como se o eu tivesse efetivamente um lado ainda objetivo ou objetivável - nomeadamente numa teoria da pessoa -, enquanto que a mais pura subjetividade, a do indivíduo, se tornava propriamente inefável: «Que a singularidade do homem - como a de cada pessoa espiritual - se distingue da particularidade das coisas impessoais, é o que foi estabelecido. Isso está de acordo com o facto de a vida [8] brotar do Eu, e de ser entregue à pessoa de uma maneira dupla: para se tornar consciente dela como posta à parte de todas as outras, e para a formar livremente. Ora, vimos que o Eu não deve ser pensado como sendo um simples Eu puro; que este não é mais que uma forma de passagem, através do qual a vida da pessoa humana sobe das profundezas da alma para a claridade da consciência. E o mais íntimo da alma, o que é mais próprio e espiritual da alma, não é incolor e sem forma, mas possui uma estrutura original: ela «sente» quando está próxima dela mesma, reclinada sobre ela mesma. Não podemos apreendê-la por um nome [9], e ela não é comparável a outras. Não pode ser analisada segundo as suas propriedades, os seus traços de carácter, pois ela repousa mais fundo [...]. «Sentimos» igualmente a inefabilidade do seu ser sobre outros. É o que, no mais fundo, nos «atrai» ou nos «repugna». Podemos então sentir uma certa familiaridade. Mas o meu género [10] e o do outro não se deixam dividir entre o que é comum e o que é distinto. Neste sentido, devemos admitir que a diferença ontológica entre os indivíduos é inapreensível [11]

O que efectivamente devemos chamar individualismo de Edith Stein, que é de facto a fina ponta «existencial» do seu personalismo, encontra na Estrutura ôntica... uma aplicação eclesiológica completamente espantosa. Enquanto que se poderia imaginar que o problema da Igreja reproduz ao nível espiritual os esquemas essenciais das relações entre indivíduo e sociedade, ou entre indivíduo e comunidade, entre indivíduo e instituição, - que Edith Stein tinha estudado em Bëitrage... e de que alguns elementos são retomados no estudo sobre o Estado -, a sua compreensão da Igreja é totalmente diferente. O indivíduo não é aquela parcela de humanidade isolada que tem necessidade dos outros, que se associa para sobreviver e para viver, que entra em comunidade - popular, nacional - para aderir a valores comuns e para viver um destino colectivo; o indivíduo é precisamente esse inefável comunicante com o Inefável, responsável perante Ele por todos os outros. Ou ainda: onde Jean-Paul Sartre via uma espécie de responsabilidade orgulhosa impor a cada liberdade escolher por todos, Edith Stein - com a sua sensibilidade fenomenológica purificada pela sua espiritualidade cristã e em breve carmelita - reconhece na Igreja uma articulação original entre solidão e solidariedade: é numa «responsabilidade recíproca» que ela vê o poder formador da comunidade. Mas insistamos primeiro sobre o indivíduo : «É completamente espantoso ver como o que isola o homem e o conduz totalmente a ele mesmo - o que constitui a liberdade - ao mesmo tempo o liga indissoluvelmente a outros e funda uma verdadeira comunidade de destino. Ele é responsável pela sua salvação, pois não o pode «fazer» sem a sua colaboração, e ninguém pode, no seu lugar, encarregar-se dela. E ao mesmo tempo é responsável pela salvação dos outros todos, e todos os outros são responsáveis pela sua [...]. Esta responsabilidade reciproca é, no mais alto grau, formadora de comunidade, mais que todas as vivências que possam ser autenticamente comunitárias. è sobre ela que a Igreja repousa. No interior da Igreja, há vivências coletivas de todas as espécies: cultos, recolhimentos, obras de caridade, etc. Mas não é a isso que a Igreja deve a sua existência. Ela deve-a a isto, que o indivíduo se ponha na presença de Deus; graças ao frente a frente e à permuta da liberdade humana e da Liberdade divina, é-lhe dada a força de estar lá por todos; e é este Um por todos, todos por um que faz a Igreja [12]»

Este estilo de responsabilidade aparenta-se evidentemente com a teoria da substituição; e é sem dúvida no cruzamento destas duas inspirações que é preciso situar Edith Stein participante no holocausto do povo judeu do próprio fundo da sua espiritualidade cristã.

As páginas sobre a vida propriamente religiosa, constitutiva da pessoa, sobre o pecado e a graça, sobre a Igreja e a fé, são outros tantos documentos que apontam para a literatura teológica e mística. Retivemos do comentário do Castelo da alma e da Ciência da Cruz unicamente o que tem a ver com a pessoa. Não julgámos necessário traduzir, do primeiro texto, o que é essencialmente uma paráfrase de Teresa d’ Ávila. Pareceu-nos que um resumo das etapas desta arquitetura espiritual, dos contrafortes à câmara nupcial, seria suficiente para apreender as impressionantes similitudes entre a análise ainda fenomenológica, ritmada pelos temas da atitude naíve-natural, do Ego solitário, e da necessidade de uma Lebenswelt, e o que já, nas profundezas, está em ressonância com a ciência mística da alma.

Por outro lado, pareceu justo retirar da Ciência da Cruz uma passagem importante sobre o Eu; isso permite ver como, tanto na obediência ao texto dos Cânticos, como na fidelidade de uma minuciosa «cópia», a inspiração própria torna-se presenta, e com ela uma obra assumida desde as suas origens. De facto, dissemo-lo suficientemente: em vez de privilegiar a ideia de uma rutura entre filosofia e vida de fé, ver entre fenomenologia e filosofia cristã, é preciso insistir sobre a firme continuidade que liga Einfühlung à ciência da Cruz. A Estrutura ôntica... é não apenas uma marca disso, mas sem dúvida a mais clara testemunha.

Quanto aos efeitos da introdução da filosofia tomista na trama desta filosofia da consciência e da alma, ainda não se mediram a amplitude nem o impacto. Um trabalho sério fica para fazer - ou mais exatamente para continuar, pois M. Florent Gaboriau [13] deu-nos o exemplo de uma leitura atenta e inteligentemente crítica das relações de Edith Stein com são Tomás e o tomismo do seu tempo.

Ser Finito e Ser Eterno é efetivamente o lugar de um enriquecimento da ontologia (fixada pela fenomenologia sobre a essência inteligível, sobre o possível principal); A tradução de de Veritate - cujas dificuldades foram talvez ocultadas pelos elogios do P. Erich Prywara - exigiria um exame que se dirigisse ao mesmo tempo à qualidade da tradução e às afinidades, tão sensíveis na obra de Edith Stein, entre a temática da vida do espírito e a das vias da inteligência. As questões do ser e do espírito foram sem dúvida apreendias em profundidade pelo encontro com são Tomás, e devido a isso são os pontos que podem levar aos mais deploráveis desprezos ou às mais notáveis distorções de sentido... Mas o que é da alma, desse centro da alma que é o coração? Aqui delineia-se qualquer coisa de inatingível - na própria Edith Stein. Mas então, o que é de uma ciência do inatingível? «Ciência do além?» pergunta inquieto Florent Gaboriau, a respeito da filosofia.

A publicação deste tratado sobre a pessoa não tem apenas por objetivo alimentar a discussão filosófica à volta da obra de Edith Stein. Perguntar-se-á também o que possibilita a estes textos conservarem um vigor e uma frescura perfeitamente notáveis. Primeiramente sem dúvida a proximidade da própria pessoa do autor; ela revela-se aí talvez mais que em qualquer outro lado. É verdadeiramente da sua pessoa que ela fala. Digamos que se trata de um autorretrato estilizado por meio de um utensílio filosófico.

Em segundo lugar, este texto permite-nos , no momento em que sofremos um esbatimento contínuo da noção de pessoa, reencontrar a sua densidade. E se tivéssemos de endurecer indevidamente a oposição, largamente perdida de vista, entre «pessoa» e «indivíduo», seria igualmente necessário lembrar que há uma «eminente dignidade» do indivíduo: que a individualidade não é feita apenas de um egoísmo fechado sobre si, altivo ou vaidoso, arrogante ou indiferente ao outro. Individuum pode ser o belo nome de uma reflexividade teocêntrica, mesmo que se tenha feito dele o sinal retiro por definição egocêntrico.

Creio que esta noção, certamente não habitual, de «reflexividade teocêntrica» está apta a situar bem Edith Stein, e através dela o seu conceito de pessoa. A reflexividade é o próprio movimento de constituição da pessoa. Reflexão, liberdade, consciência, Eu, são todos juntos os sinais de uma mesma realidade. Filosofia reflexiva, certamente; mas filosofia não mais antropocêntrica ou egocêntrica, mas teocêntrica. O que não significa um abandono da reflexividade em nome, por exemplo, de uma «intuição do ser» (para falar como Jacques Maritain), mas a necessidade de conduzir o trabalho de análise da alma até ao ponto de convergência com temas que forçosamente vêm existencialmente e teoricamente da mística.

Todo o discurso sobre os direitos do homem, a pessoa humana, e a prática que ele subtende é indispensável e urgente. Mas muitas vezes ele ainda é ligado a uma ideia da dignidade da pessoa que que se arrisca fortemente a aparecer como uma fraude, a partir do momento em que se torna demasiado visível que o próprio homem é o pior inimigo desta «pretendida» dignidade. Ou então fixa-se o seu «lugar» na alma, nas profundezas da alma, nos abismos da consciência e muitas vezes da inconsciência, num centro inviolável que não se limita à «esfera pessoal» das nossas curtas sociologias e das nossas morais friorentas. A dignidade da pessoa não está no direito de recusar o teste da sida - para só tomar um exemplo, atualmente muito falado. Ela está no intercâmbio do Espírito que dá e do espírito que recebe: na força que torna um homem capaz de se reerguer de onde uma comum indolência tinha feito dele o ser «agitado de impressões a reações» - que Edith Stein descreve no começo do livro - no extremo aquele que até o instinto já não retém diante dos perigos da droga e dos vergonhosos lugares de morte.

É perante a nossa impotência em conceptualizar a verdadeira dignidade que devemos aprender a escutar as vozes extintas ou vivas, e particularmente a de Edith Stein. Voz sufocada há cinquenta anos [14], mas que a escrita - felizmente traduzível, reprodutível, repetível - retém na sua força e no seu brado. Voz inolvidável a partir do momento em que ela ressoou em nós, nessas profundezas de onde ela surgiu e ela mesma se elevou, como uma melodia e como um grito.

Devo exprimir os meus agradecimentos a Jean-Christophe Merle, que quis muito encarregar-se da tradução das passagens selecionadas de Seelenburg e que reviu as traduções já existentes: as das passagens tomadas de Ser finito e Ser eterno e de Ciência da Cruz. Como para a publicação de Fenomenologia e filosofia cristã, as traduções existentes foram trabalhadas com vista à maior unidade possível do estilo e da melhor harmonização do vocabulário. Que os respetivos Editores encontrem aqui a expressão da nossa gratidão pela sua amável compreensão.

PHILIBERT SECRETAN


[1a presente versão portuguesa foi feita a partir desta tradução editada por Les Éditions du Cerf, 1992, Paris.

[2Werke, t. VI, Ed. Nauwelaerts (louvain) e Herder (Fribourg-en-Brisgau), 1962, p. XVII e XVIII.

[3Ver o Anexo II.

[4Respectivamente: Ed. Max Niemeyer, Tübingen, 1970; Werke, t. VI e Werke , t. I.

[5Sobre Heidegger visto por Edith Stein, ver Fenomenologia e filosofia cristã, trad. Ph. Secretan, Paris, Ed. du Cerf, 1987, chap. VI.

[6Ver Do Estado, trad. Ph. Secretan, Paris, Ed. du Cerf, 1989, p.154 s.

[7De L’Etat p. 13-14.

[8Quer dizer a existência (N.d.T.).

[9Dito de outra forma, uma categoria (N.d.T.).

[10No texto, Art, quer dizer, aqui: a minha maneira de ser o meu estilo (n.d.T.).

[11Endliches und Sein, em Werke, t. II, p. 458.

[12A Estrutura ôntica...

[13F. GABORIAU, Edith Stein philosophe, Paris, FAC Éditions, 1989.

[14Ou melhor, há setenta e quatro, à data da publicação desta tradução portuguesa (N.d.T.P.).

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