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Os Magos adoram o Deus Menino
domingo 4 de Janeiro de 2026
Maria conta-nos através de Consuelo:
Chegado o momento, José dispôs-se a deixar a gruta porque era fria e incómoda para o menino; ele pensou que se ficássemos em Belém estaríamos mais perto de Jerusalém, pois só ficava à distância de duas léguas, e seria mais confortável para Jesus ir de lá para o templo.
Mas José desconhecia o mistério dos Santos Reis, e quanto a mim, o que sabia por vontade divina, devia calá-lo.
Deus assim o queria, e a sua forma de proceder é sempre, e em tudo, justa e perfeita. Não deveria, pois, contrariar a vontade de meu esposo, pois que lhe devia obediência.
Mas chegado o momento, apareceram, em forma humana, dois príncipes angélicos, Gabriel e Miguel, e disseram: "José, é da vontade do Altíssimo que os Santos Reis da terra adorem aqui o Rei dos céus, pois vêm do Oriente e, desde o momento em que lhes enviámos um emissário, puseram-se a caminho e já levam dez dias de viagem."
José aceitou de bom grado os desígnios do Todo-poderoso e exclamou cheio de júbilo: "Que belos e inescrutáveis são os teus caminhos Senhor! Que infinita é a tua misericórdia! Levantas o teu braço sobre o mar e separas as águas. E do vil barro retiras realeza e tornas sublime e santo o débil e imperfeito. Nada escapa aos teus olhos, pois tudo diriges e governas com sábia providência. Faça-se, pois, Senhor, segundo o que ordenaste; que toda a minha alegria é fazer a tua vontade."
E foi assim que permanecemos nesta gruta, para mim Sancta Sanctorum, onde a Luz divina veio ao mundo. E "o povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz, uma luz brilhou sobre os que habitam neste país de trevas" [1], para dissipar as trevas da morte.
"Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos!" [2]. Pois "Quem dirigiu o pensamento do Senhor, ou como conselheiro o instruiu?" [3].
Adoração dos Santos Reis
Os santos Reis do Oriente chegaram a Jerusalém e perguntaram: "«Onde está o rei dos judeus recém-nascido? Com efeito vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.» Ouvindo isto o rei Herodes ficou alarmado e com ele toda a Jerusalém. E, convocando todos os chefes dos sacerdotes e os escribas do povo, procurou saber deles onde havia de nascer o Cristo. Eles responderam: «Em Belém da Judeia, pois está escrito pelo profeta. E tu Belém, terra de Judá, de modo algum és o menor entre os clãs de Judá, pois de ti sairá um chefe que apascentará Israel, o meu povo.»
Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e procurou certificar-se com eles acerca do tempo em que a estrela tinha aparecido. E, enviando-os a Belém, disse-lhes: «Ide e procurai obter informações exactas a respeito do menino, para que também eu vá adorá-lo».
A estas palavras do rei, eles partiram. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente ia à frente deles até que parou sobre o lugar onde se encontrava o menino. Eles, ao verem a estrela, alegraram-se imensamente. Ao entrar na gruta, viram o menino com Maria, sua mãe, e prostrando-se por terra, adoraram-no. Em seguida, abriram os seus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra" [4].
Os Santos Reis ficaram extasiados na presença de tão pobre e humilde menino; no entanto, viram Nele uma sublime realeza porque não puseram o seu olhar em coisa aparente, mas antes elevaram o seu espírito ao transcendente e, como era próprio do seu entendimento sublimado pela sabedoria divina, souberam ver naquela humildade e pobreza a divina realeza do Deus Humanado.
Eles eram sábios, muito ilustrados e conhecedores do mundo dos astros, mas aprenderam num instante, ante aquele menino, aparentemente indefeso, grandes e sublimes mistérios; o seu conhecimento abriu-se à luz, e a sua ciência e saber estenderam-se por toda a religião.
Eram homens ilustres que vieram do Oriente para ver o Messias, respondendo assim à chamada de Deus. Viram-No mais pobre que os pobres, sem honra nem glória aparentes, mas não hesitaram em ajoelhar-se e adorar tão divino Infante, demonstrando com isso uma grande reverência, respeito e santo "temor de Deus, que é o princípio da sabedoria" [5].
Depois de ver e adorar o divino Menino, os Santos Reis decidiram ir avisar Herodes, conforme tinham acordado. Mas Deus, que conhecia as pérfidas intenções de Herodes, disse em sonhos a estes homens ilustres: "Não volteis pelo caminho assinalado, pois que o inimigo tem estendida a sua rede, que quer aprisionar o inocente. Mudai de rota, porque Herodes trairá a vossa confiança." Assim fizeram e voltaram ao seu país por outro caminho, louvando a Deus, "que retribuiu aos santos o pagamento dos seus trabalhos e os guiou por um caminho cheio de maravilhas" [6].
A sua ciência e santidade estenderam-se por todo o lado e, quando falavam, saía-lhes pela boca a riqueza dos seus corações, porque "a sabedoria apregoa pelas ruas, nas praças levanta a voz, clama no topo das vias mais ruidosas, e pronuncia os seus discursos nas entradas das portas e nas cidades" [7].
E eu digo a todos os homens que ainda não aprenderam a familiarizar-se com esta santa e divina ciência do conhecimento de Deus, sublime sabedoria não aprendida nem estudada nas escolas deste mundo: a cátedra de tão elevada ciência está no céu e de lá desce aos corações, e alcançaram-na todos os que se sentaram na escola da pobreza, da humildade e da renúncia a si mesmos; porque "a sabedoria é uma exalação do poder de Deus e um límpido eflúvio da glória do Todo-poderoso" [8], e cai copiosamente, como o orvalho, sobre as almas humildes.
Enquanto os Santos Reis caminhavam com o espírito sublimado pela oração, que mantinha as suas almas como uma chama sempre acesa no amor divino, os presumidos, os pérfidos, os pastores desconfiados e assustadiços reúnem o conselho para ver se o Rei dos judeus lhes vai arrebatar o seu trono, poder e categoria.
Pobres homens! "Até quando, presumidos, amareis a presunção?" [9].
(fonte: Maria, Porta do Céu, cap.11)
[1] Is 9,1.
[2] Rom 11,33.
[3] Is 40,13.
[4] Mt 2,1-11.
[5] Prov 1,7.
[6] Sab 6,17.
[7] Prov 1,20-21.
[8] Sab 7,25.
[9] Prov 1,22.