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A Visitação

sexta-feira 31 de Maio de 2024

(Dado por Maria a Consuelo):

«Por fim chegámos à cidade montanhosa de Judá. O meu divino Filho descansava sereno no meu seio virginal, à espera do tão desejado momento, pois o seu divino Coração ardia em chamas. Desejava dar-se, entregar-se aos homens; estes eram os veementes desejos redentores de um Deus loucamente enamorado das suas criaturas.

Primeiro entrou José e saudou Zacarias e os que com ele estavam. Zacarias era sacerdote do templo. Estando nele veio visitá-lo da parte de Deus o arcanjo Gabriel e disse-lhe: “Zacarias, tua esposa Isabel conceberá e dará à luz um filho.” Sabendo Zacarias que Isabel era estéril e ele idoso, não deu crédito à visão, e a dúvida fez ninho no seu coração. Ao ver isso o arcanjo disse-lhe: “Zacarias, a partir de hoje ficarás mudo por causa da tua desconfiança e falta de fé, pois deves saber que a Deus nada é impossível.”

Zacarias não respondeu à saudação de José, e este, desconhecendo que estivesse mudo, disse-lhe de novo: “A paz do Senhor esteja com todos vós.” Isabel ao ouvir esta saudação e estando prevenida pelo Todo-poderoso da minha chegada, desceu com alegria para me receber, acompanhada de algumas servas, como era costume. Ao ver-me muito se alegrou.

“O Senhor esteja contigo, prima Isabel!” – disse-lhe eu –. E ela respondeu: “Dou graças ao Senhor porque permitiu que viesses ver-me.” Depois fomos as duas sozinhas para outra divisão, pois a casa era muito espaçosa. Zacarias e Isabel eram nobres e bem instalados, tinham servos e gozavam de simpatia entre os parentes e amigos.

Estando sós, disse-me Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite? Pois quando a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu ventre. Feliz aquela que creu, pois aquilo que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido!” [1]

Com o espírito cheio de alegria disse:

6.1. Cântico de Maria (“Magnificat”)

“A minha alma engrandece o Senhor
E meu espírito exulta em Deus meu Salvador,
porque olhou para a humilhação da sua serva.
Sim! Doravante todas as gerações
me chamarão bem-aventurada,
pois o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor.
Seu nome é santo
e a sua misericórdia perdura de geração em geração,
para aqueles que o temem.
Agiu com a força do seu braço,
dispersou os homens de coração orgulhoso.
Depôs poderosos dos seus tronos,
e exaltou a humildes.
Cumulou de bens a famintos
e despediu ricos de mãos vazias.
Socorreu Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia
– conforme prometera a nossos pais –
em favor de Abraão e da sua descendência para sempre!” [2]

Faltavam três meses para Isabel dar à luz e, sendo de idade avançada quis ficar com ela e assim o fiz. Durante este tempo dedicá-mo-nos permanentemente ao Senhor com retiros e oração profunda; passávamos grandes jornadas louvando o Todo-poderoso, “ao Criador de grandes e insondáveis coisas; de maravilhas sem número” [3].

O meu divino Salvador juntava-se à nossa oração e como Sacerdote eterno apresentava-a ao Pai em união com a Paixão e morte que deveria padecer, e tudo isto fazia Jesus com um amor infinito, orando por todos os homens que tinha vindo salvar.

Assim corriam os dias; enquanto o fruto do meu ventre se nutria do meu sangue virginal, e o corpo perfeitíssimo de Jesus menino crescia dentro de mim; poucos conheciam o facto da Encarnação do Verbo, só aqueles a quem Deus quis revelá-lo.

O Senhor trata os homens com prudência, Ele não quer que a sua débil natureza se abata e vai-lhes mostrando o caminho pouco a pouco; preparando as suas almas, aperfeiçoando o seu espírito com a prova, foi assim que o Altíssimo forjou o meu santo esposo José na fornalha do seu divino Coração. Ele estava junto de Mim sem se dar conta nem suspeitar do grande mistério da minha fecundidade. Mas Deus que começa as suas obras, termina-as sempre.

José, passados dois dias, regressou a Nazaré, pois tinha de retomar o seu trabalho; e permitiu-me que pudesse ficar com minha prima Isabel. Foi de grande caridade para com ela, pois o meu esposo sabia muito bem que a minha presença lhe serviria de consolo. Isabel era mais velha e, embora sendo mulher de grande fé e confiança no Senhor, sentia-se mais confortada com a minha presença, muito mais sabendo que trazia o Salvador dentro de mim.

Grandes trabalhos e muitas moléstias teve o meu casto esposo de suportar com a minha ausência; mas ele era um homem sempre desejoso de ajudar a todos, acorria prontamente ao serviço dos demais, sem ter em conta o sofrimento que isso lhe poderia trazer; José era muito caritativo, bom e generoso, fruto do grande amor que ardia no seu coração.

Durante a minha ausência, uma mulher vizinha muito piedosa, a quem Deus havia favorecido muito, dava atenção aos trabalhos domésticos.

Entretanto em casa de minha prima Isabel todos esperavam com alegria a chegada do menino, que era para seus pais um presente do céu. Isabel era uma mulher piedosa prudente e mortificada. Procurava em tudo agradar a Deus, fazia sempre as suas orações e a sua vida interior nutria-se dela. A presença do Senhor entusiasmava o seu espírito, tornando-a mais fervorosa, e a sua alma enriqueceu-se sobremaneira durante o tempo em que Jesus ali permaneceu.»


Fonte: Maria, Porta do Céu (Cap. 6)


[1Lc 1,42-45.

[2Lc 1,46-55.

[3Job 5,9.