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As dores de São José
domingo 21 de Dezembro de 2025
De Maria por Consuelo para instrução dos Seus filhos:
Decorria o quinto mês da minha gravidez quando o castíssimo José, vendo que a minha maternidade era patente e não tendo tomado parte alguma nela, foi assaltado por dúvidas e desconfianças. A tristeza apoderou-se do seu coração e ficou pensativo e confuso; não sabia o que fazer comigo.
José era um homem fiel e cheio de Temor de Deus, e esta situação tão dolorosa trazia-lhe à alma um grande desconsolo. Travou duras lutas consigo mesmo, pois não queria acreditar no que os seus olhos viam, e no entanto a gravidez era bem visível. Que podia fazer? – disse no seu interior: “abandoná-la-ei em segredo” –. Confundido e clamando ao céu piedade e misericórdia, foi-se deitar; ainda não tinha entrado bem no primeiro sono quando um anjo do Senhor lhe falou dizendo-lhe:
“José, filho de David, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo.
Ela dará à luz um filho e tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados. Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o senhor havia dito pelo profeta:
«Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão com o nome de Emanuel, o que traduzido significa: Deus está connosco»” [1].
José acatou submisso a vontade de Deus, porque acreditou fielmente nas palavras do anjo. Ajoelhando-se, pediu perdão a Deus por todas as suas desconfianças; mas um misto de sentimentos o cercava. José sentia grande alegria e gozo porque a sua humilde casa era a eleita para que viesse ao mundo tão formoso menino; por outro lado, provocava-lhe respeito e admiração, pois aquele terno infante era o Messias, o Filho de Deus. Mas quando o seu pensamento caía em mim, chorava amargamente, e assim passou toda a noite movido pelo arrependimento, por ter duvidado e desconfiado de sua esposa. Porém “o justo caminha na sua integridade” [2]. E Deus “não desprezou nem desdenhou a aflição do aflito” [3]. e compadeceu-se da sua dor.
Mal tinha amanhecido quando vi José aproximar-se com o semblante grave e triste. Prostrou-se diante de mim e disse-me desconsolado:
“Muito minha amada senhora e minha esposa, a quem os meus olhos não são dignos de olhar nem a minha língua de pronunciar tão doce e santo nome, que por minha torpeza e perturbação ofendi com as minhas desconfianças e dúvidas.
Minha caríssima terna e compassiva pomba, consolai o meu coração aflito e perdoai-me pelo mesmo Deus que levais no vosso virginal ventre. Ele sabe quanto pesar trago na minha alma, e não posso levantar-me se antes vós, minha amada, não me tiverdes perdoado.”
Olhei para José, e toda a minha alma louvou o Senhor, porque aquele homem santo, humilde e de tanta perfeição era obra de suas mãos. Ele não tinha apenas sobre o seu coração a angústia da infidelidade; o que verdadeiramente feria o seu espírito era a ideia de pensar que sua esposa tinha deixado de cumprir a grande promessa, o voto de castidade que desde menina fizera ao Senhor. E isto vi-o na sua alma e alegrei-me em Deus, meu Salvador, porque me tinha permitido ver e sentir a santidade de meu esposo. E extremamente comovida disse-lhe:
“Levantai-vos, meu esposo, levantai-vos do chão, e juntos louvemos o Todo-poderoso pela sua grande misericórdia ao fixar os seus olhos nestes humildes servos e ao querer partilhar toda a sua vida com estes dois filhos de David. “Porque a sua misericórdia se estende de geração em geração para aqueles que o temem” [4].
José recuperou a paz, e embora a sua perturbação fosse bem justificada, a sua gravidade não chegou a ofender a Deus, pois era o zelo de Deus que lhe pedia para ser comedido, vigilante e fiel ao voto de castidade que ambos livremente tínhamos feito, e depois de desposados guardámos zelosamente de comum acordo. No entanto esta dolorosa prova aperfeiçoou seu espírito e trouxe grandes e frequentes graças à sua alma. A sua generosa entrega e o seu profundo amor a Deus cresciam dia a dia, entusiasmava vê-lo em oração, o seu rosto transfigurava-se com o seu grande recolhimento interior e todo ele destilava amor. É sabido que depois da tempestade vem a bonança, e que superadas as provas aparece um novo ar, diáfano e livre de impurezas, que aplana o caminho e encurta a distância entre Deus e o homem, entre o Criador e a sua criatura.
Foram grandes as dores de São José e extremamente complicadas todas as provas a que foi submetido; porém em todas elas demonstrou obediência, uma sólida fé e uma profunda humildade.
A sua alma estava totalmente aberta ao Senhor, atenta à mais leve insinuação, requerimento ou chamada. Toda a casa estava cheia de Deus e nós éramos moradores do céu. Ardíamos no fogo do amor divino, por isso todas as nossas obras estavam com Ele, Nele e por Ele. Elas tinham um único fim: agradar a Deus, nosso Senhor, porque a Ele nos devíamos em corpo e alma. “Pois a Deus pertence a realeza: Ele governa as nações. Só a Ele adorarão todos quantos dormem na terra” [5].
Fonte: Maria, Porta do Céu, cap. 7 (7.3-7.4.)