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A Virgem Maria fala sobre São José

domingo 29 de Março de 2026

Casamento de Maria Santíssima com São José

Os mestres e os sacerdotes reuniram-se, pois que eu ia fazer 14 anos; sendo órfã, todos eles desejavam que eu não deixasse o Templo antes de ter encontrado um esposo. Por outro lado, eu pertencia à família de David; ora toda as profecias diziam que o Messias nasceria por essa altura e seria da casa de David. Por causa de todas essas observações, eles aproveitaram o momento em que os jovens celibatários estavam reunidos para orar e cumprir os seus deveres religiosos. Estavam todos reunidos e entre eles, um santo homem fisicamente agradável e espiritualmente agradável a Deus; ele tinha feito voto de castidade, era humilde, obediente e dado à oração. No momento de me encontrar, ele já sabia o que o Altíssimo esperava dele. Deus concedeu-lhe essa graça e ele soube desde o princípio que tal era também o meu desejo.

Simeão pôs um bastão nas mãos de todos os jovens. Eis o sinal que o Todo-Poderoso tinha dado a Simeão: o bastão que florisse seria aquele que assinalaria o eleito, o esposo de Maria.

Foi assim que José foi escolhido, pois que o seu bastão seco tinha florido, e ele foi-me dado em casamento. José tinha 33 anos. Ao ver-me, pareceu perturbar-se, porque ele pensava que me era inferior; nós fomos casados segundo a lei de Moisés e abandonámos o Templo para ir para a cidade de Nazaré.

O meu coração sangrava dentro de mim mesma; eu tinha ficado 11 anos no Templo, dedicada ao meu Deus; agora, por obediência a esse mesmo Deus, era obrigada a sair dele. Meu Deus! «cinge-me de força e torna o meu caminho irrepreensível e iguala os meus pés aos das corças» [1] a fim de correr, pronta a cumprir a tua vontade. Senhor e meu Deus, eu não quero demorar-me em julgamentos, nem fazer, nem desejar o que vós não desejardes, porque vós sabeis bem que os meus olhos não têm por hábito olhar outra coisa que não seja vós mesmo, meu amado Mestre; mas eu direi aos meus sentidos o que vos agradar, a fim de que fiqueis satisfeito, pois que eu não devo servir para mais nada que não seja contentar o meu Senhor.

Minha filha, toda a minha vida dependia Dele. Eu tinha sido consagrada ao Senhor; todos os instantes da minha vida lhe pertenciam. Como podia eu duvidar das suas palavras se a fé me sustentava? Ela elevava-me em mim mesma e dizia-me: Deus ama-te e velará por ti. E no entanto, porque é que o meu coração estava tão triste? Foi para mim um grande sofrimento e uma situação muito difícil. Esta mãe, a vossa, passará por provas dolorosas: eu fui tanto provada por Deus como amada; e a minha purificação foi tal que fiquei mais polida que o ouro.
Deus ordenou a Abraão que sacrificasse o seu filho único, Isaac, depois de lhe ter dito que seria numerosa a sua descendência: Abraão foi com seu filho para o sacrificar a Deus. Isaac dirigiu-se a seu pai Abraão e disse: "Meu pai!"; ele respondeu: "O que é, meu filho? – "Pois bem, retomou ele, eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?" Abraão respondeu: "É Deus quem proverá o cordeiro para o holocausto, meu filho", e eles foram-se os dois juntos.

«Quando chegaram ao lugar que Deus lhe indicara, Abraão construiu o altar, dispôs a lenha, depois amarrou o seu filho e colocou-o sobre o altar, em cima da lenha. Abraão estendeu a mão e apanhou o cutelo para imolar o seu filho.
«Mas o anjo do Senhor chamou-o do céu e disse: "Abraão! Abraão!" Ele respondeu: "Eis-me aqui!" O Anjo disse: "Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus: tu não me recusaste teu filho, teu único"» [2].

É desta forma que Deus prova aqueles que ama.

Maria, Virgem castíssima

A castidade era para a minha alma uma virtude preciosa: sacrificá-la, entregar-me a um homem depois de ter conhecido, amado e sentido as delícias do amor divino, fazia-me tremer. O meu coração não queria dever-se a nada nem a ninguém, única e exclusivamente a Deus. Mas era necessário para os desígnios do Senhor que assim fosse: foi por isso que me abandonei a Ele e fiz a sua divina vontade. Tal como o santo patriarca Abraão, fui provada na minha fé e na minha obediência.

«Meu Pai, disse-lhe eu, eis-me disposta ao sacrifício e, se devo renunciar à minha promessa para fazer a vossa vontade, que ela seja feita, pois o meu desejo é de fazer sempre o que vós desejardes. Morro de amor e não sei o que devo fazer para continuar a viver, meu Deus!»

José, cheio da luz divina, aproximou-se de Mim e disse-me: «Sabei, minha Senhora, que podeis pedir ao vosso esposo aquilo que neste momento o vosso coração mais ardentemente desejar.»

Oh meu Deus! - disse eu para mim mesma - a vossa serva está em dificuldade, mas vós estendeis-me rapidamente a mão e ao meu apelo vindes prestar-me socorro!

«Sim, respondi eu imediatamente, pois que mo dizeis, há uma coisa que eu desejo com fervor: sabeis que fiz a meu Deus e Senhor, quando era pequena, voto de castidade e tenho a alma despedaçada com a ideia de não poder manter a minha promessa. Mas sois vós que direis o que devemos fazer, pois que o senhor abençoou a nossa união e conhece o coração do homem.»

Então José com o sorriso de um homem muito feliz disse-me -:«Louvado seja o Senhor, minha esposa. Louvado seja o Senhor, minha Senhora, façamos o que desejais, pois que essa decisão agrada grandemente à minha alma. Com efeito, é preciso que eu vos diga que desde os 12 anos de idade, ofereci a Deus a minha castidade e é para mim uma alegria, e não um sofrimento, continuar neste estado. Consagrar-vos-ei a minha vida, cuidarei de vós e proteger-vos-ei perante os homens: seremos, os dois e para sempre, consagrados a Deus em corpo e alma. Vós me destes, minha Senhora, uma grande alegria e louvo o Senhor por isso.»

Cheia de alegria, exclamei, inflamada: Obrigada, meu Deus!
«Pois os que Nele confiam
compreenderão a verdade
e os que são fiéis permanecerão
junto a ele no amor;
pois graça e misericórdia são para os seus santos» [3].

Maria Santíssima amava seu esposo, São José

Eu era feliz no meu novo estado, com a certeza de que assim agradava a Deus. Ao mesmo tempo, cumpria os meus deveres de esposa pois que, de comum acordo, apenas de um dever estava dispensada.

José trabalhava, ele era carpinteiro, e eu fazia tudo o que uma esposa faz pelo seu esposo. Cuidava dele com ternura, pois era um homem honesto, santo e temente a Deus, prudente e fiel, simples e humilde, pois que o Senhor tinha cultivado todas estas virtudes na sua alma. De modo algum inclinado à conversação, ele não empregava o seu tempo em coisas banais. Não se dispersava, sabendo que os sentidos são a porta de entrada dos pecados na alma: exercia sobre eles um controlo severo de modo que a sua conduta exterior era o reflexo da sua grande vida interior, rica em graças, embelezada pelas virtudes que Deus lhe tinha oferecido como presente.

Era cortês e em tudo comedido, conservava os seus hábitos e, na sua alimentação, mostrava-se frugal, austero e mortificado. O que te posso dizer, é que um homem como ele, tão perfeito, só pode existir graças à intervenção divina: Deus formou-o assim para que depois ele pudesse cuidar, proteger e instruir Jesus, e não podia ser de outra forma. Amava a Deus acima de tudo e sentia-se feliz por servi-lo. Homem perfeito, cheio de fé em todos os instantes da sua vida.

Ele rezava constantemente: nada nem ninguém o podia distrair dos seus deveres religiosos. Ao cair do dia, a meu lado, lia as Sagradas Escrituras, e gostava de recitar os Salmos e cantava-os com uma voz harmoniosa.

A minha alma voava sobre as asas do Amado, quando o meu esposo José recitava em voz alta o seguinte salmo:

«Tu me envolves por trás e pela frente,
e sobre mim colocas a tua mão.
É um saber maravilhoso, e ultrapassa-me,
é alto demais: não posso atingi-lo!
Para onde ir, longe do teu sopro?
Para onde fugir, longe da tua presença?
Se subo aos céus, tu estás lá;
Se me deito no Xeol, aí te encontro.
Se tomo as asas da alvorada
para habitar nos limites do mar,
mesmo lá é tua mão que me conduz,
e tua mão direita me sustenta» [4].

Deixei-me, pois, conduzir pelas mãos fortes e poderosas de meu Deus; a sua delicadeza e a sua ternura encantavam a minha alma e extasiavam o meu espírito; eu caminhava junto a Ele, como uma menina pequena e sem defesa, enquanto ele me mostrava os mais insondáveis e profundos mistérios que a mente humana jamais compreenderá. O meu Senhor tinha um fraco por esta criatura frágil, e quanto mais ele se aproximava de mim, mais eu me via pequena e insignificante. Durante nove dias consecutivos, ele levou ao extremo os seus ensinamentos e o seu amor invadiu-me. Digo-vos que não existe no mundo, por mais longe que se procure, um melhor amante, mais doce e mais compassivo.

Vida em comum dos santos esposos

A nossa vida era simples e não tínhamos nada de vão nem supérfluo, porém tão pouco nos faltava o necessário. Éramos pobres e como tal vivíamos em santa pobreza dando muitas vezes aos mais necessitados aquilo que era para nosso sustento.

José trabalhava e punha um grande amor em tudo quanto fazia, o seu espírito era corajoso e não lhe faltavam recursos nem a sua inteligência em a sua habilidade. Nunca estava ocioso. “a preguiça faz cair no torpor e a alma negligente passará fome” [5].

Terminado o dia, falávamos, e os nosso colóquios eram profundamente piedosos. Líamos salmos e assim passávamos longas horas, todas elas presididas pelo Filho divino que crescia nas minhas entranhas. Como Jesus era a nossa vida, tudo, até os mais pequenos detalhes, eram para Ele encaminhados.

Com quanta reverência e ternura o víamos crescer! Que bela esperança para todos os filhos tristes e desesperados! E no entanto, ao sentir os seus movimentos dentro de mim, não podia esquecer que perante Ele muitos voltariam o rosto, outros ignorariam a sua presença e os demais troçariam da sua palavra. Estes pensamentos feriam o meu coração e causavam abatimento à minha alma, pois sabia que o fruto das minhas entranhas poria divisão e inimizade entre muitos homens.

Recordar os que em Jesus encontrariam a paz, a esperança e o amor alegrava o meu espírito, e compreendi que merecia a pena qualquer sofrimento. Meditando sobre todas estas coisas vi muitos dos meus filhos na comprometida prova de ter de escolher entre Deus e o mundo e vieram à minha mente estas palavras: “ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo” [6].

Perante tanta infidelidade, cheia de dor comecei a dizer: “Oh coração humano, endurecido pelos teus muitos pecados: está aqui a tua salvação e és tão néscio que a rejeitas, e vives com a crença de que nunca morrerás! Se pensasses nas finais: morte, juízo, inferno e glória, como teria de mudar a tua vida! Que amorosa fidelidade guardarias a esse Deus misericordioso e bom, mas ao mesmo tempo Juiz supremo que te há-de julgar!

Filhos da dor, que cegos estais perante o futuro! Voltai os olhos para Deus, afastai-vos do pecado, fugi dele como da mais contagiosa e repelente enfermidade, porque mata e escraviza o homem. “ Até quando presunçosos amareis a presunção e vós zombadores vos empenhareis na zombaria?” [7]

“Oh mundo pervertido e cruel, que nunca acertarás na tua escolha, pois amas e libertas o ímpio e condenas e matas santos e profetas! A quem recorrerás para que te salve, se está perante ti a salvação do mundo e lhe fechas a porta?

Meu filho, dorme agora em paz, descansa tranquilo no seio de tua Mãe, porque aqui a maldade do mundo e a perfídia dos homens não poderão molestar-te.”

Assim decorria a minha vida, dedicada inteiramente ao meu Deus, pois mesmo que os meus deveres de esposa me chamassem, como os fazia com tal espírito, o amor a Deus não diminuía com eles; antes pelo contrário, crescia de maneira surpreendente, pois devo dizer-te que, quando a alma se dá a Deus, não faz distinções; o amor não tem marcos nem fronteiras, e amando-o a Ele sobre todas as coisas, ama-se também com um amor muito sublime, santo e divinizado a todas as criaturas que nos rodeiam.

Quando o homem se liberta dos seus torpes pensamentos e deixa que Cristo ame por ele, viva por ele e olhe toda a criação com os seus divinos olhos, a mudança produz-se, e a paz inunda a alma e adivinha-se à distância que esse homem é de Deus, pois ama à semelhança de Deus e em tal grau, que o seu divino amor emerge com força por todos os poros do seu corpo. Oh que divina loucura! Quando começareis a dizer: verdadeiramente não sou eu que vivo, “é Cristo que vive em mim”? [8]

Os santos esposos modelo dos esposos

Venerável Sor Maria de Jesus, d’Agreda:
“Tudo quanto Deus criou foi para exemplo e benefício do homem; nada foi feito de forma vã e caprichosa; cada detalhe, por pequeno e insignificante que pareça, tem nos desígnios de Deus um fim maravilhoso. O Senhor nada escamoteia às suas criaturas e a tudo se presta, baixa-se inclusivamente até comunicar com elas para conseguir os seus fins. Este livro reafirma tudo o que te estou a dizer e servirá para edificar e santificar o homem.

Escreveste tudo quanto a nossa Rainha e soberana Senhora te inspirou acerca da sua vida. Mas falta realçar aqui como viviam os santos esposos em obediência mútua. Sabemos que é por sua natureza santa que assim vivessem; porém como tão excelsos esposos devem servir de exemplo aos casais, deves deixar bem assente para glória de Deus e regozijo do homem todas as grandes e belas virtudes que eles praticaram em supremo grau: se não o fizeres, não as podereis imitar e ficaria assim diminuída a vida de tão sublime Rainha e Senhora.

Quero dizer-te que foi a humilíssima Maria que pediu ao casto José para ficar submetida a ele em obediência.

São José via em Maria Santíssima não só a sua esposa, mas a Mãe do Redentor. Cuidava dela com esmero e dirigia-se a ela com suma veneração respeito e amor; oravam juntos abrasados num amor celestial, puro, santo e divinizado. Era tanta a admiração que São José sentia por sua santa esposa, e temia tanto ofendê-la, que antes de fazer alguma coisa, parava para considerar se aquilo que ia realizar agradava a tão excelsa Rainha. A nossa boa Mãe viu no seu interior com luz intelectiva e compreendeu que o santo José agia assim não só por amor, mas por respeito à dignidade devida à Mãe de Deus.

Então a humilíssima Senhora disse a seu esposo: “José, meu esposo, alivia a minha carga e vê-me como a escrava do Senhor e vossa serva, porque esta dignidade não parte de mim, nem é mérito meu, mas do Criador, nosso Deus e Senhor, que me elegeu segundo os seus misericordiosos desígnios. Assim, por esta obediência, praticaremos a humildade e seremos gratos a Deus, pois é seu desejo que eu esteja submetida em obediência àquele que por vontade divina é meu santo esposo.”

A petição da Rainha do Céu não depreciava a sua dignidade de Mãe de Deus nem de esposa, visto que por isso foi a eleita do altíssimo, cativando-o a sua grande humildade. Tanto pediu a São José, que por amor a ela e ao Todo-poderoso ele assim o fez; sendo a cabeça da família, inclusive depois do nascimento de Jesus, São José assumiu toda a responsabilidade até à hora da sua morte, o Redentor divino obedecia-lhe e estava-lhe submetido.

Fica aqui bem claro como hão-de ajustar-se os esposos e como hão-de viver em amor e respeito mútuo. Ao terem a obediência e a humildade por companheira agradarão a Deus e serão exemplo para seus filhos e para o Mundo. Tudo será possível se viverem no santo temor de Deus. Estes dois santos e castos esposos, José e Maria, (que por obedecer a tão humilíssima e santa Senhora nomeio depois de São José), são, pois, modelo dos esposos.
Nestes tempos de confusão e dúvidas mostra-se de novo ao mundo como tábua de salvação a vida de tão sublime e excelsa Senhora. Perante a incredulidade do homem, Deus fecha os olhos e mostra-se benigno. Na sua comiseração e piedade volta a estender a mão a seus filhos, a pôr perante os seus olhos o mais sublime e excelso da criação, Maria Santíssima, nossa Rainha e soberana Senhora. Ajuda-me a exaltá-la.

“Faz verdade a minha verdade.”

A viagem para o recenseamento

Passavam os dias e a salvação dos homens batia à porta. Tudo aconteceria segundo o que tinha sido profetizado profetizado; e os homens que andam quase sempre ocupados com discussões e disputas, pôr-se-iam de acordo, sem o pretender, para que tudo acontecesse segundo os desígnios de Deus; de forma que “ naqueles dias, apareceu um édito de César Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado. Esse recenseamento foi o primeiro enquanto Quirino era governador da Síria. E todos se iam alistar, cada um na própria cidade. Também José subiu de Nazaré, na Galileia, para a Judeia, na cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e da família da casa de David, para se inscrever no censo” [9].

Os domínios de Roma estendiam-se por todo mundo; por isso se chamavam os senhores do mundo. Orgulhosos das suas conquistas e querendo saber qual o número de súbitos, para espoliar e controlar melhor os seus vassalos, publicaram este édito, que a todos mobilizou para o censo, e uns e outros iam inscrever-se ao lugar que lhes correspondia.

Vi, pois, José com a preocupação reflectida no rosto, ele sabia como eu me encontrava, pois o meu estado já ia avançado, e sentia expor-me à penúria da incómoda e longa viagem; então disse-me: “Minha caríssima esposa, o meu coração está muito aflito, pois temos de ir a Belém recensear-nos; e embora eu pudesse ir sozinho por ser o chefe de família, como deixar-vos aqui, senhora minha? Pois se vou e vós vos encontrais só, será penoso para a minha alma não ver-vos nem poder-vos assistir em tão memoráveis momentos. Não sei que fazer. Maria, se não tiverdes nenhuma advertência do Altíssimo, eu vos pediria, doce senhora, que viésseis comigo, porque vendo-vos os meus olhos, a paz e o sossego reinará na minha alma, pois só de olhar para vós sinto que a presença de Deus invade todo o meu ser.”

Obedeci a meu casto esposo e perguntei ao Senhor o que ordenava para que a sua serva pudesse obedecer-lhe. E o Senhor, Meu Deus, disse-me: “Segue o teu esposo, vai com ele para Belém, porque lá nascerá o teu filho. Não deves sentir nenhum temor, vai em paz, Senhora e Dona do Céu, Mãe do Unigénito, que os meus anjos irão à frente; eles iluminarão o caminho, porque está escrito: «aos santos deu a paga de suas penas, guiou-os por um caminho maravilhoso; de dia serviu-lhes de sombra e à noite, de luz de astros»" [10].

Informei José do que o Altíssimo me tinha dito: que devia acompanhá-lo; mas guardei todo o resto em segredo. A minha alma formou-se na escola da prudência e aprendi desde a mais tenra infância esta grande virtude de minha boa e querida mãe Santa Ana, pois ela estava informada por Deus de grandes e profundos mistérios acerca da minha vida e do Nascimento do Filho de Deus, e no entanto, como um rico tesouro guardava-os sempre no seu coração e a ninguém revelou estes segredos, porque assim era do agrado de Deus.

Eu seguia esta norma, e quando o Senhor não me dizia expressamente que podia revelar as suas palavras, eu guardava silêncio e exercitava a fé, confiava que quando Deus começa uma obra, tem poder para a terminar. Ele fala em seu devido tempo; a divina Providência sempre age; entretanto ensina o homem a exercitar a bela virtude da prudência, que às vezes é maior o mal que as palavras provocam em algumas almas que o bem que se pretende ou deseja. Sabendo isto, “os simples aprendam a prudência, os insensatos adquiram um coração” [11], pois o meu soberano senhor tem poder para dizer as coisas quando quer e a quem lhe agrade.

Preparei as faixas e fraldas do Divino menino e algumas coisas mais. Quando vi José, ele trazia consigo um jumentinho; parecia-me que estes animais traziam nos seus alforjes saber e inteligência, pois sendo fracos e de poucas forças, caminhavam como se fossem lindos corcéis.

O Altíssimo prometeu o que me tinha prometido, e enviou os santos anjos como guardiões. E no seio materno ia o meu doce Rei “eleito entre dez mil” [12].

Sendo tão duros de cerviz, muitos dos meus filhos ficarão espantados com estas coisas que vos digo. Por isso duvidará o douto e rir-se-á o sábio, mas o de coração puro acreditará; não sentirá mais que gozo e alegria de espírito, ante a grandeza de Deus que aqui se lhe manifesta.

O homem deve viver de fé durante toda a sua vida, a sua natureza humana não está preparada nem poderia resistir à glória da divindade. E no entanto, ante tanta ternura o homem resiste ao seu Deus com grande indiferença.

Espanta-me a sua incredulidade! Indo atrás dos seus pensamentos o homem esqueceu que não é “nada e ninharias as obras de suas mãos” [13]. Enquanto o homem aprende a levantar-se sobre si mesmo, o orgulho entra no seu coração e crê-se um ser superior.

Não deve perturbar-se a vossa alma, nem deixeis que a vossa mente abrigue pensamentos torpes. Sabei que Deus está sempre acompanhado por espíritos angélicos que louvam o seu santo nome.

Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, crescia dentro de mim, e não é o meu Senhor dono dos céus e da terra e de tudo quanto eles contêm? Todos os anjos do céu, todos os homens da terra, todo o universo criado são nada na presença de Deus. Ante o omnipotente e sempre-eterno Senhor os tronos sucumbem, os ídolos caem, a terra treme e a vida é um sopro, e “toda a criatura é erva e toda a sua glória como a flor do campo. Seca a erva e murcha a flor quando o vento de Deus sopra sobre elas” [14].

Não há que estranhar, pois, minha filha, que a tão alta Realeza siga e acompanhe o seu séquito, um grande número de amigos e leais servidores, que cantavam belas canções; os coros angélicos eram acompanhados por pássaros de todas as espécies, que com os seus harmoniosos trinados extasiavam o menino, que dormia tranquilamente; pois, sem ter inteligência, a natureza é mais pródiga em amor que o coração de muitos homens.

Chegada a Belém

Ao entardecer do quinto dia chegámos a Belém; a cidade estava cheia de viajantes que tinham vindo recensear-se; fomos à hospedaria e não havia lugar para nós porque estava a abarrotar. José bateu de porta em porta; confiava em que alguns amigos e familiares, ao ver o meu avançado estado, nos deixariam pelo menos passar a noite; no entanto não foi assim, pois a negativa ou o desprezo foi o acolhimento que em todas as casas dispensaram ao Filho de Deus, “que veio aos seus e os seus não o receberam” [15].

José estava triste e desconsolado, pois aproximava-se a desagradável e fria noite e não tínhamos onde dormir, nem sequer onde refugiar-nos. Com quanta dor esta mãe vê todos aqueles homens que rejeitam a salvação que bate à sua porta e, na sua cegueira e obstinação, não abrem porque não têm lugar no seu coração para acolher o Filho de Deus, que é tratado pior que os animais selvagens, pois “as raposas têm tocas e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” [16].

Estas criaturas tão curtas de vista e com tanta falta de siso trouxeram à minha mente a lembrança de todos aqueles homens que ao longo das suas vidas se tornariam surdos ao chamamento de Deus, sendo contumazes na sua indiferença, avessos ao sacrifício e pobres na sua entrega.

Os anjos estão espantados ao verem a dureza de tantos corações. Que podia fazer o santo e sofrido José? O meu esposo era um homem de virtude e temeroso de Deus, mas desconhecia muitos dos desígnios que o Altíssimo tinha sobre aquele menino.

O Senhor teve muito em conta a natureza fraca de José, pois a cada momento lhe dava a informação necessária a fim de que nada nele fosse motivo de turbação. José, desconhecendo o mistério, insistia, ia de porta em porta e batia em todas e sofria muito ante o silêncio ou a negativa.

A minha alma sabia-o e o meu espírito tinha-o compreendido: que assim sucederia para que se cumprissem as Escrituras, que o Filho de Deus havia de deparar-se com homens cujo coração era de pedra e que tinham posto correntes e ferrolhos na sua alma. É tão grande a ingratidão do coração do homem que esquece os vínculos de sangue e os laços de amizade. Pobre humanidade! Que ainda não tinha chegado o momento de despertar do seu longo sono, torpor ou interminável letargia. Oh humanidade dorida! Oh humanidade ingrata! O meu coração de mãe está sem consolo.

Em silêncio ia meditando sobre os mistérios que Deus me tinha mostrado; e com gozo e alegria de espírito louvei o Senhor porque estava a ver, através da sublime luz que o Altíssimo infundiu na minha alma, que aquilo que o meu Deus tinha vindo do céu procurar, tinha-o ali em abundância, graças à cegueira e dureza do coração dos homens.

Eram nove da noite; uma noite escura e fria. Sem saber o que fazer José olhou para mim com lágrimas nos olhos, e disse-me: “Minha muito amada esposa, que posso eu fazer? Vós sabeis que se dependesse de mim conseguiria para vós um palácio a fim de que vós e o Menino que levais no vosso seio pudésseis descansar. Que não faria eu, Senhora minha, para vos evitar esta indigência, o frio e a dor? Ver-vos assim destroça o meu coração, porque vós, minha dulcíssima rainha, mereceis um trono e estais aqui nesta praça, só e desamparada.

Estou desolado e não posso mais que pedir-vos perdão pela dureza de coração destes homens. Envergonho-me de todas as palavras ofensivas que pronunciaram contra vós quando eram importunados com a minha chamada, e embora também vociferassem contra mim, os seus insultos não me espantavam, pois deles sou merecedor por vos ter exposto a esta dor.

Vejamos, doce e santa esposa, se quiserdes, saímos para fora da cidade, pois sei que há uma gruta que serve de estábulo aos animais e protege os pastores do frio; é possível que esteja vazia e que possamos resguardar-nos lá e passar a noite; pois uma vez que tenhamos cumprido a missão que até aqui nos trouxe, nada nos falta fazer senão voltar para nossa casa.”

Escutei em silêncio as palavras cheias de amargura, que eram fruto da ternura e do amor que José sentia por este divino Menino e por sua esposa; mas mostrava um desconhecimento absoluto dos mistérios de Deus, e era natural que assim fosse; e cheia de um gozo espiritual inexplicável, vendo a pureza dos eu coração e a grandeza da sua alma, disse-lhe: “Meu esposo, não se deve contristar o vosso coração, porque nada de quanto desejais para mim, por bom e louvável que vos pareça, o meu coração ambiciona; que só se conforma com o que vós tenhais, porque pouca coisa é a vossa esposa para desejar tronos e palácios; e menos ainda, sendo a escrava do Senhor, para querer alguma coisa que não seja da vontade de Deus; e se Ele quis que nos víssemos nesta dolorosa situação, louvemos o Senhor por isso, meu esposo, e alegrai o vosso ânimo, pois se ao Meu Deus lhe basta para descanso e refúgio o ventre desta pobre mulher, porque não há-de bastar-me a mim, para descanso e refúgio, esse estábulo de que falais? Vamos, pois para ele, se assim o decidistes, que eu só desejo o que vós desejardes.”

Atravessámos a cidade. Era Sábado (sabat judaico). Entrámos na gruta. Era um lugar frio e estava extremamente sujo, pois nos últimos dias deviam ter acampado muitos pastores ou mendigos, porque tudo estava numa grande desordem e desalinho. Mas depressa ficou tudo como se fosse um palácio, e são José acendeu uma grande fogueira para aquecer o ambiente; arranjou alguma palha para que eu pudesse descansar e depois retirou-se para orar como fazia habitualmente.

Ajoelhei-me sobra a palha que com tanto amor o meu esposo José tinha arranjado para mim, e comecei a orar; precisava de o fazer, ficar sozinha, pois muitas coisas tinham acontecido durante o caminho; e outras estavam prestes a acontecer, e elevei os meus olhos para o céu e dei graças ao Todo-poderoso por tantos privilégios. Então compreendi que aquele lugar era santo, eleito por Deus desde toda a eternidade para que nele nascesse o Redentor do mundo; e entendi que aquela indigência, pobreza e humildade que o Pai permitiu que o sue divino Filho padecesse, tinha como fim que resplandecessem Nele as virtudes que tinha vindo ensinar aos homens.

A pobreza e a humildade brilhavam como luzeiros, e então vi como perante o desordenado desejo de riqueza que transtorna os sentidos e faz dos homens escravos estultos e néscios, o Senhor dos senhores e Rei dos reis, deixando de lado honrarias e riquezas, despreza tronos e glórias e mostra-se ao mundo na mais absoluta pobreza.

Fui meditando, uma a um, todos estes acontecimentos, os passados e os que haveriam de acontecer, olhei para a gruta e fixei os meus olhos na manjedoura. E um amor inexprimível me envolveu: ali estava o meu Deus, ali nasceria o seu divino Filho, e a gruta seria o seu palácio; o seu trono, a manjedoura, e as suas vestes reais, uns pobres e simples cueiros; pois pouco mais havia por ali, para além da humildade e da pobreza e nelas se comprazia a minha alma, que nada desejava, pois não tinha necessidade de coisa alguma. Tendo o meu Deus tudo me bastava. Ele era a minha única riqueza; possuí-lo, o meu maior tesouro; o meu amado senhor cativava o meu coração, e não podia pensar Nele sem ficar capturada no círculo misterioso, abismo insondável do Amor vivente.

Pela grande misericórdia de Deus fui preservada da culpa e cheia de graça; sou, no entanto, uma pobre criatura, e com o conhecimento divino e humano que o Altíssimo me quis dar sobre alguns mistérios, acredita, minha filha, que a minha alma transborda perante tão sublime grandeza, e ao meditar sobre o mistério do nascimento do Filho de Deus; sinto-me pasmada, porque sou de fraca condição humana, e a partir da minha baixeza contemplo admirada e cheia de grande gozo o amor e a misericórdia de Deus, que sendo quem é, se apresenta perante o mundo sem aparência divina, como uma criança indefesa, pobre e desamparada.

Este pensamento entusiasmava o meu coração e inflamava o meu espírito; entretanto a graça de Deus crescia dentro de mim sem limites nem medida, de tal forma que fui elevada em dulcíssimo e inexplicável êxtase.

Ouvi a voz do meu amado, o Senhor da vida, que me dizia: “Vem, minha esposa, minha pomba, minha irmã, vem; porque és toda bela, minha amada, filha predilecta, e não existe defeito em ti; por isso me roubaste o coração” [17].

Fui chamada à presença do Altíssimo. Ele mostrou-me grandes mistérios referentes ao nascimento, vida, Paixão e morte do meu divino Filho. Como a amada confia no amado, eu confiei no meu Deus; misticamente reclinei a minha cabeça no Coração do meu Senhor, oceano incomensurável do Amor vivente, e nele encontrei paz, consolação e ânimo para o espírito, e de novo disse sim e aceitei com alegria partilhar todos os sofrimentos que o divino Jesus havia de padecer; igualmente tomei sobre mim a pobreza, a humilhação e o desprezo que junto a Ele suportaria pela salvação dos homens.

À medida que o meu espírito crescia em aceitação e o meu corpo se abandonava inteiramente a Deus, dentro de mim emergia o amor com mais força, transformando a minha alma, divinizando-a, e todo o meu ser transpirava amor; permaneci durante uma hora absorta, na contemplação destes grandes e profundos mistérios, enquanto uma potente luz me envolvia.

A caminho do Egipto

O anjo do Senhor disse em sonhos a José: "Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egipto; fica lá até que eu te diga, porque Herodes vai procurar o menino para o matar. Ele levantou-se, tomou o menino e sua mãe, durante a noite, e partiu para o Egipto, e ali ficou até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que dissera o Senhor por meio do profeta: Do Egipto chamei o meu filho" [18].

Conforme o aviso do anjo do Senhor, pose-mo-nos a caminho do Egipto; levámos poucas coisas connosco, pois a viagem era longa e por terras desconhecidas.

Tudo o que te vou relatar aconteceu pelo mês de Fevereiro. O meu esposo José estava muito preocupado e não sabia como evitar este sofrimento ao divino Menino, pois tinham-lhe sucedido toda a sorte de penalizações. Ainda não tinha nascido e já peregrinava pelo mundo e foi submetido a incomodidades de todo o tipo. Era, pois, duro para José pensar nas dificuldades de uma viagem tão incómoda.

Com estes pensamentos aproximou-se de mim e, embora o seu espírito estivesse disposto a fazer sempre a vontade de Deus, quis comunicar-me as suas tribulações.

"Minha esposa - disse-me ele - o que não faria eu para vos evitar tanto sofrimento, trabalho e desassossego? Parte-se-me o coração ao ver como dorme este tão belo Menino, enquanto homens sem escrúpulos maquinam a sua morte. Que podemos fazer? Acaso somos nós senhores do dia ou da noite? Vós sabeis que nem um só instante nos pertence; é a divina Providência que faz e desfaz os desígnios dos homens, e Ele disse-me que fujamos para o Egipto. Façamos, pois, a sua vontade, Senhora minha; façamos sempre a sua divina vontade."

Tão desconsolado vi o meu justo e santo esposo, que lhe disse para sossego de seu coração e bálsamo de seu espírito: "Ó meu esposo, não deveis contristar-vos; se Deus nos deu tantas graças e dons, bom é que com o mesmo prazer e alegria recebamos todos os trabalhos e sofrimentos que a vida traz consigo. Não temais, José, meu esposo, pois que levamos connosco o sumo Bem, o tesouro mais apreciado do céu e da terra. O que temeremos, se Ele está connosco? Que é Herodes ante a presença de Deus? Que é o homem? Nada; e as obras das suas mãos, ninharias. Que tudo quanto há-de acontecer, é permitido por Deus, que «embota o coração deste povo, entorpece os seus ouvidos e cega os seus olhos para que com os seus olhos não veja, nem ouça com os seus ouvidos nem compreenda com o seu coração» [19].

Não tenhais medo, José; é esta aparente debilidade de Menino indefeso que vos comove e aflige, mas vede bem com os olhos da fé; este terno Menino será para nós "como um forte rochedo, uma torre fortificada para nos salvar; pois é rochedo e cidadela e em virtude de seu Nome nos guiará" [20] pelo caminho recto. Quando vos sentirdes desfalecer, "olhai para Ele e ficareis radiante" [21], que não há-de entristecer-se o vosso coração, pois Deus está aqui. Ele viajará connosco."

Aproximei-me do berço e vi como o meu pequeno continuava a dormir. José contemplava-o extasiado e disse-me com ternura: "Minha esposa, «provai e vede como o Senhor é bom» [22], que nos confiou o seu Filho Unigénito. Quão ditosos seremos se esperarmos n’Ele!"

Senti uma dor, pois tinha de o acordar; tomei-o nos meus braços e Ele abriu os seus olhos como dois grandes luzeiros; eles iluminaram a escuridão daquela fria e desagradável noite.

Como conhecia a minha tristeza e compreendeu o respeito e a dor que me causou acordá-lo, sussurrou-me estas palavras: "Minha Mãe - disse-me Ele -, «põe-me como um selo sobre o teu coração, acolhe-me nos teus braços, pois o teu amor é forte como a morte e as suas brasas são brasas de fogo, são divinas as chamas que te abrasam» [23], minha Mãe."

Entre a sua alma e a minha trocaram-se versículos do Cântico dos Cânticos; pois Ele era o meu amado, e eu a sua amada; e foi assim que lhe disse: "Jesus, meu Filho, «lírio dos vales, acorda e, antes que sopre a brisa do dia e debandem as sombras da noite, corramos como uma gazela ou como os filhotes dos gamos sobre a montanha de Beter»" [24].

 Ó sim, minha Mãe, respondeu-me Ele; "leva-me contigo, e corramos; mete-me no teu coração, tabernáculo vivo de Deus, e me alegrarei eternamente contigo, celebrarei cada vez mais por seres minha Amada, minha Mãe, a eleita do Altíssimo, minha pomba, minha pura; alegra o teu semblante, minha mãe, e faz-me ouvir a tua voz, pois a tua voz é doce e belo o teu semblante" [25].

Envolvi o meu tesouro em mantas para o resguardar do frio, e partimos num pequeno jumento. Que afortunados são os animais que prestam serviço ao seu Criador! Que se soubessem falar, quantas coisas diriam às inteligências mais doutas e sublimes; mas às vezes é no seu silêncio e em baixar a sua cerviz que está a sua eloquência. Como noutras viagens, a nossa carroça era este pobre animal, ele não caminhava a trote, mas era constante, e quando as suas forças claudicavam, parávamos para descansar.

Os santos anjos peregrinavam com "o meu amado; Ele estava radiante e era rosado, saliente entre dez mil" [26].

No início caminhávamos ocultando-nos, pois Herodes não estava longe e os santos anjos apressavam-nos e não queriam que descansasse-mos em nenhum sítio, pois a guarda de Herodes tinha-se mobilizado. Passámos muito perto do lugar onde vivia a minha prima Isabel, e um anjo do Senhor foi avisá-la a fim de que pegasse no seu filho e fugisse com ele para o deserto, pois Herodes não deixaria nenhum menino com vida.

Chegámos a Gaza e descansámos lá dois dias, porque o meu esposo José estava fatigado, e o pobre jumentico não podia continuar a caminhar. No terceiro dia voltámos de novo a empreender a viagem; deixando de lado as povoações da Palestina, entrámos no deserto até chegar ao Egipto. As noites eram ásperas e passávamo-las muitas vezes sob as estrelas, quase sem abrigo, e no inverno.


Fonte: Maria, Porta do Céu


[1V. 2Sm 22,33-34.

[2Gn 22,7-12.

[3Sb 3,9.

[4Sl 139, 5-10.

[5Prov 19,15.

[6Mt 6,24.

[7Prov 1,22.

[8Gal 2,20.

[9Lc 2,1-5.

[10Sab 10,17.

[11Pro 8,5.

[12Cant 5,10.

[13V. Is 41,24.

[14Is 40,6-7.

[15Jo 1,11.

[16Mt 8,20.

[17V. Cant 4,7-9.

[18Mt 2,13-15.

[19Is 6,10.

[20V. Sl 31,3-4.

[21Sl 34,6.

[22Sl 34,9.

[23V. Cant 8,6.

[24V. Cant 2,1.16-17.

[25V. Cant 1,4; 2,13-14.

[26Cant 5,10.