Um pouco mais de Luz

A SABEDORIA É UM REFLEXO DA LUZ ETERNA (V. Sb 7,26)

Página inicial do sítio > Sabedoria humana / Sabedoria Divina > À Procura de Reconhecimento

À Procura de Reconhecimento

sábado 13 de Agosto de 2011

Devoto como sou do "Sagrado Coração de Jesus" , não deixo de entrar na Basílica da Estrela (Lisboa) sempre que posso. Foi numa dessas visitas que recentemente encontrei uma revista de língua francesa que alguém providencialmente lá deixou. Trata-se da revista mensal "Feu e Lumière - Recontrer Dieu" (Fogo e Luz - encontrar Deus), em cuja edição de Abril de 2011 encontrei o artigo do Padre Jacques Philippe, cdb, que, com a devida vénia, a seguir apresento traduzido

Os observadores da vida social constatam uma certa contradição no mundo actual. Com efeito, a manifestação de uma necessidade de reconhecimento cada vez mais gritante parece perder-se, na impossibilidade de se encontar uma presença capaz de lhe responder

O sonho de vir a ser uma celebridade nunca foi tão grande . Cada um aspira a sair do anonimato, a fazer com que falem de si. São testemunho disso o sucesso da imprensa "people" (gente), a participação nos jogos televisivos, os concursos de beleza, a corrida às proezas desportivas e recordes de todo o género, (publicados todos os anos no Guinness, onde se podem encontar as coisas mais inverossímeis, tal como recordes de ingestão de escorpiões!), a proliferação de blogs. Num desenho de Sempé, pode ver-se um homenzinho numa imensa biblioteca, com prateleiras até ao teto cheias de milhares de livros, empenhando-se em escrever enquanto diz a um amigo: "resolvi escrever um romance para sair do anonimato!".

O RECONHECIMENTO SOCIAL EM CRISE

Mas inversamente todas as instituições que, outrora, estavam preparadas para proporcionar uma certa qualificação e reconhecimento aos indivíduos, têm hoje dificuldade em desempenhar o seu papel. Na família, a imagem parental é desqualificada. A escola é depreciada, os diplomas não dão qualquer garantia de emprego. O mundo político, o Estado assim como as suas "Legiões de Honra" são suspeitos. A manutenção de um lugar de relevo na empresa depende mais do humor dos acionistas e dos movimentos da bolsa que do trabalho realizado, e a pressão imposta pelos objectivos económicos faz muitas vezes da vida profissional mais um lugar de angústia que de gratificação. A carreira militar já não atrai. Quanto à Igreja e às instâncias representativas da religião e da moral, já não se lhes reconhece, no Ocidente, a capacidade de valorizar um indivíduo. Está mais em voga a transgressão que a boa conduta, e há muito tempo que o cura já não é um notável.

Estamos perante este paradoxo: face a esta cruel fome de reconhecimento, de identidade, já não há ninguém que esteja à altura de conferir um reconhecimento, de validar uma identidade. Só restam a opinião pública ou os media, que proporcionam uma nomeada efémera, baseada em valores superficiais e modas passageiras. Que não podem contentar verdadeiramente ninguém...

O FRÁGIL RECONHECIMENTO AFECTIVO

Esta necessidade de reconhecimento, insatisfeito no plano social é muitas vezes reenviada para a esfera privada, das relações interpessoais. Constata-se um refúgio na vida privada, numa busca de calor afectivo, como banners que se colam uns aos outros. Constata-se também uma valorização extrema da experiência amorosa. É verdade que esta tem algo de muito belo: há um rosto que adquire, entre todos os outros, um valor único ameus olhos e, inversamente, eu torno-me para o outro algém único. Ela é o lugar de um reconhecimento mútuo, de uma apreciação (no sentido etimológico: dar um preço) reciproca. Cada um adquire um valor imenso para o outro. Ao descobrir o outro eu revelo-me a mim mesmo. Esta experiência dá resposta a uma necessidade profunda, a necessidade de ser amado de maneira única. Mas ela é frágil, e nem sempre mantém as suas promessas. Se a necessidade de reconhecimento se alimentar exclusivamente da relação afectiva, que acontece quando o sentimento amoroso dá lugar à indiferença, ou à rejeição? Tudo desaba. A necessidade de reconhecimento exige um fundamento mais sólido que a simples intersubjectividade. Como pode um ser, ao fim de contas semelhante a mim, frágil e imperfeito, conferir-me por si só um verdadeiro reconhecimento? É preciso que haja a mediação de um Outro.

A única saída para estes paradoxos é o encontro com o Pai. Apenas Ele está à altura de dar a cada pessoa o reconhecimento do qual esta tem sede. Só Ele revela a cada um a sua verdadeira identidade, num máximo ao mesmo tempo de verdade objectiva e de ternura subjectiva. O aprofundamento da relação filial com Deus gera no coração do homem aquilo que de facto contitui o núcleo, ao mesmo tempo sólido e doce, da identidade pessoal: uma dupla certeza, a certeza de ser amado e a certeza de poder amar. As duas são necessárias e só encontram o seu fundamento último na vida de filho de Deus realizada pelo dom do Espírito.

PARA ALÉM DA PERSONALIDADE PSICOLÓGICA

A sede de identidade manifesta-se no entusiasmo em relação à psicologia. Na procura da identidade e na sua construção, a psicologia tem uma inegável utilidade: ela permite «desembaraçar o terreno», ajudar a pessoa a tomar consciência de aspirações escondidas ou do que existe de artificial na construção do eu (mimetismos, ilusões, dependências relacionadas com aquilo que se espera dos outros, etc.). Mas não dá acesso à identidade profunda da pessoa.

Mais especificamente, no desenvolvimento da identidade pessoal, os aspectos humanos são certamente importantes, (descoberta e aplicação dos talentos e capacidades próprias, aprovação destes por parte do outro), mas ao fim de contas o que é decisivo é a dimensão espiritual, a instauração de uma relação verdadeira e profunda, com Deus. A aceitação e o desenvolvimento em toda a nossa vida desta Palavra: "Tu és o meu filho bem amado, em quem eu pus todo o meu amor" (cf. Mc 1, 1). Deus, ao revelar o seu rosto de Pai dá ao homem a possibilidade de descobrir o próprio rosto.

O PAI QUE FAZ DE NÓS SEUS FILHOS

A descoberta da identidade profunda é da ordem de uma verdadeira revelação. Ao revelar-se como criador, salvador, Pai, Deus revela o homem a si mesmo. Revela a cada um o que tem de único: o amor único do qual é objecto da parte de Deus, e também o amor único que pode dar a Deus e ao mundo, que mais ninguém poderá dar em seu lugar. Eu não serei São Francisco, nem Madre Teresa, mas posso amar Deus como nunca ninguém o amou. Como o desejaram muitos santos. Eu tenho uma maneira única de trazer em mim a imagem de Deus, de me deixar configurar a Cristo e de dar fruto.

Entretanto uma coisa deve ser notada. O processo através do qual uma pessoa acede à sua identidade profunda, a um verdadeiro conhecimento de si, da sua missão, da graça que nela repousa , está longe de ser sempre um processo tranquilo e linear de aquisição progressiva de competências, de qualidades, etc. É muitas vezes paradoxal, na lógica do Evangelho: é preciso perder-se para se encontrar. Passa por muitas provas, fracassos, humilhações, dolorosos desapegos, isto é, quedas lamentáveis, tal como a de São Pedro. Passa pela descoberta da pobreza e da impotência radical que são o nosso lote. Isso é necessário, a fim de que a parte artificial e voluntarista da nossa identidade, assim como a componente de presunção, de ilusão, de narcisismo, de busca egocêntrica de realização, que cada um traz em si, sejam radicalmente eliminadas. O eu superficial deve morrer, para que a identidade verdadeira se revele. Pradoxalmente, é ao aceitar a própria pobreza que se descobre a maravilha que se é aos olhos de Deus. Há camadas profundas de miséria, que é preciso ter atravessado, para descobrir o núcleo intacto e são (santo) da nossa personalidade, que não é mais que o amor único que Deus nos tem, e o amor único que, por pura graça, ele nos possibilita manifestar.

Todo aquele que, do fundo da sua pobreza, não cessa de procurar sinceramente Deus e de responder aos seus apelos, acabará mais cedo ou mais tarde por tomar para si as palavras do salmo 138: "eu te celebro por tantos prodígios, maravilha que eu sou, maravilha que são as tuas obras".


Sagrado Coração de Jesus, expressão do Amor recíproco do Pai e do Filho donde procede o Espírito Santo, graças te dou pois sou um servo inútil que procura fazer o que deve fazer.

Alguma mensagem ou comentário ?

Fórum requer assinatura

Para participar nesse fórum, deve estar previamente registado. Por favor indique a seguir o identificador pessoal que lhe foi fornecido. Se não está registado, deve inscrever-se.

Ligaçãoinscrever-sepalavra - passe esquecida ?